PSD não pede auditoria às contas do Estado. Tema está na campanha
Publicado em 28 de Março de 2011
Cavaco travou pedido de auditoria às contas. Passos Coelho concorda com empréstimo de curto prazo se em causa estiver a solvabilidade do país
O PSD afastou a ideia de pedir, para já, um auditoria às contas públicas do Estado, por pressão do Presidente da República e das instituições europeias, mas não vai deixar que o tema seja omitido durante a campanha eleitoral que se adivinha. "O BPN e o sector empresarial do Estado não podem ficar fora do debate político", diz ao i fonte da direcção laranja. Este passo atrás do líder do PSD pode ainda ser usado como trunfo em Bruxelas para negociar, por exemplo, um empréstimo de curto prazo, se em causa estiver a solvabilidade do país.
Há porém quem no PSD considere que a postura do presidente do partido devia ser outra. Nogueira Leite, conselheiro económico do PSD, defende que "o partido é livre de pedir toda a informação que considere necessária para saber qual é a verdadeira situação do país". "Não se pode aceitar a teoria de que, agora, a transparência é má", refere.
O líder do PSD pretendia pedir em directo na entrevista que concedeu à SIC, na última sexta-feira, uma auditoria às contas públicas para que fosse conhecida a real situação do país. À semelhança do que Durão Barroso fez com o executivo de Guterres e José Sócrates, ao chegar a São Bento, depois da saída de Santana Lopes, Passos Coelho via na transparência das contas uma forma de justificar as medidas de austeridade que o PSD terá de adoptar, se for governo, depois de se ter comprometido em Bruxelas com os valores do défice já negociados pelo executivo de José Sócrates. As intenções de Passos Coelho foram, porém, travadas pelo Presidente da República, na reunião que manteve com o líder do PSD na última sexta-feira. Como o "Expresso" avançou este fim-de-semana e o i confirmou, Cavaco Silva apelou aos superiores interesses do país como argumento para travar a radiografia às contas. O Presidente da República deu ainda voz aos apelos do Presidente da Comissão Europeia, do Presidente do Banco Central Europeu e da chanceler alemã, que defendem que a descoberta de novos buracos orçamentais punha em causa mais uma vez (depois do caso grego) a capacidade de fiscalização das instituições europeias.
"Isto tem a ver com o medo do que se possa descobrir", refere ao i o economista João Duque, que confessou ter "sentimentos contraditórios" sobre a realização de uma auditoria às contas do Estado. Uma radiografia ao estado das coisas "dava alguma ajuda ao governo que viesse. Mas, por outro lado, correríamos o risco sério e o exercício poderia ter consequências dramáticas", diz o especialista. "Se forem encontradas situações de falseamento das contas, iríamos ver as taxas de juro disparar e iríamos sofrer cortes de rating", sustenta. Pedir uma auditoria nesta fase pode ser considerado uma espécie de "haraquiri nacional", numa analogia com os suicídios protagonizados pelos samurais.
Passos aprova empréstimo O líder do PSD concedeu ontem uma entrevista à agência Reuters, onde defendeu o recurso a um tipo de empréstimo de muito curto prazo (denominado de bridge loan), caso as dúvidas sobre a solvabilidade do país continuem a crescer, apontando que um governo de gestão pode tomar esse tipo de decisões. Contudo, um empréstimo destes é normalmente mais caro que os empréstimos normais. Portugal tem 4,5 mil milhões de euros de dívida para pagar em Abril e mais uma fatia de semelhante tamanho para pagar em Junho. Passos ainda esclareceu à Reuters que não chumbou o PEC IV por achá-lo demasiado duro, mas por achar que não era duro o suficiente: "Chumbámos não porque ia demasiado longe nos cortes, mas porque não ia longe o suficiente para ter impacto na dívida pública" do país.
No entender de Passos Coelho, as dúvidas dos mercados sobre a situação nacional devem-se apenas à presença de Sócrates no leme do país. "Os mercados não acreditam que este governo tenha credibilidade ou legitimidade para atingir os seus objectivos", sublinhou à Reuters. "Não tomaram qualquer medida de reforma estrutural", acusou.
Pedro Passos Coelho revelou ainda à Reuters mais pormenores sobre o seu plano de governo caso seja eleito. A abertura do capital da Caixa Geral de Depósitos a pequenos investidores, mantendo o Estado uma fatia maioritária no banco público, foi uma das novidades apresentadas pelo líder do PSD à Reuters. "Precisamos de reorientar o mandato da CGD e nessa reorientação não cabe o sector segurador ou da saúde", avançou ainda Passos Coelho. Mas além do grupo CGD, o líder do PSD quer ainda ir "mais longe" no dossiê das privatizações e admitiu abrir o capital da CP, da Refer ou da Águas de Portugal a privados. A privatização da TAP, que o governo deseja que ocorra ainda este semestre, terá também o apoio do líder do PSD.
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