Sócrates arranca campanha e acusa PSD de "cambalhota política"
por Sónia Cerdeira, Publicado em 28 de Março de 2011
PSD acusa Sócrates de "pugilismo verbal" e diz que programa eleitoral do PS é o já anunciado PEC IV
Abriu a época do "vale tudo" para "ganhar mais votos", afirmou ontem José Sócrates. O tiro de partida está dado e o tom da argumentação para a campanha eleitoral definido: no primeiro discurso como secretário-geral reeleito, José Sócrates criticou o PSD e distinguiu o PS da "agenda liberal" laranja.
Sócrates acusou o PSD de não ter um programa, mas antes uma "barafunda de propostas". "Depois de terem aberto uma crise política vêm admitir aumentar o IVA. A isto se chama em política uma cambalhota", criticou. A ironia face aos sociais-democratas foi uma constante no seu discurso: "Não foi a liderança do PSD que disse que não se poderia aumentar o IVA, por ser um imposto cego, que causaria recessão?"
Seguiu-se a acusação ao líder do PSD de já se ter "rendido" à ajuda externa e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). "Pensei que o PSD tinha pensado numa aliança com o CDS, mas parece que é com o FMI", ironizou. O aviso ficou dado: "As medidas impostas por esses programas são muito mais nocivas para a qualidade de vida dos portugueses. Impõem uma agenda liberal que eu não estou disponível para aceitar", declarou Sócrates, referindo que caso Portugal tenha de pedir ajuda externa isso vai significar o "desprestígio" e a perda de "influência" do país na Europa.
O rol de críticas prosseguiu com Sócrates a acusar os sociais-democratas de "duplicidade". "Não se pode chumbar o PEC aqui e lá fora andar a dizer que se está de acordo com os objectivos do PEC, porque isso é apenas um exercício de duplicidade, politicamente, absolutamente inaceitável", afirmou. Para José Sócrates, as ideias anunciadas nos últimos dias por dirigentes do PSD de avançar com despedimentos na função pública, de cortar o 13.o mês ou de privatizar a Caixa Geral de Depósitos são a prova de que o PSD tem uma "agenda escondida" e só não revela as suas propostas "porque tem medo das consequências eleitorais".
Ao PSD e a Passos Coelho, Sócrates voltou a exigir propostas concretas - "Se o PSD pensa que se escapa desse dilema de apresentar alternativas está enganado" - e quis deixar bem claro que a crise política "era evitável" e que foi uma "irresponsabilidade e inconsciência" da oposição, que inviabilizou o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), motivada por "puro egoísmo partidário" e "sofreguidão pelo poder a todo o custo".
É nesse tom que José Sócrates fará campanha, insistindo na ideia de que o PSD nunca quis entendimento para manter a "confiança" de Portugal na Europa. E prova disso é a revogação do modelo da avaliação dos professores. "Eleitoralismo fácil", acusou o secretário-geral socialista, referindo que "este episódio ficará a marcar um período em que vale tudo" por um "punhado de votos" e isso "destrói a credibilidade".
O PSD não demorou na resposta. O secretário-geral do partido, Miguel Relvas, acusou o PS de insistir "numa atitude de pugilismo verbal que não leva a lado nenhum". Incitado por José Sócrates a apresentar alternativas, Relvas disse apenas que os sociais-democratas apresentarão "no momento adequado" um "projecto de esperança" para Portugal, sem concretizar medidas. "O PS tem a vantagem de já ter um programa eleitoral. É o PEC IV, o que não augura nada de bom", criticou Relvas.
estratégia Depois de mais de 30 minutos de discurso, José Sócrates apelou à união do partido: "Quero um PS mobilizado e empenhado", disse, num apelo interrompido por aplausos de pé e gritos de "PS, PS, PS". Sócrates teve uma vitória clara nas directas (93,3%) para o cargo de secretário-geral, conseguindo mais votos expressos e mais delegados do que em 2009. "Eu, tal como o PS, nunca viro a cara às dificuldades. Não fujo às responsabilidades", disse Sócrates, acrescentando que lutará "com alegria com o PS", numa referência às eleições legislativas antecipadas que se aproximam.
Os socialistas estão unidos em torno de Sócrates e a estratégia para a campanha eleitoral é, por um lado, "desmascarar a irresponsabilidade de quem lançou o país na crise", principalmente o PSD e, por outro, "afirmar o que é necessário para o país, que não é o FMI", explica ao i Capoulas Santos, director da campanha da recandidatura de Sócrates à liderança do PS.
Se, numa primeira fase, vários dirigentes socialistas criticaram a actuação do Presidente da República na gestão da crise política, agora a estratégia para os próximos tempos não passa pela crítica directa a Cavaco Silva. "Estamos preocupados com o país e não com os actores políticos. Não queremos ser um factor de perturbação maior do que aquele que já existe", diz Capoulas Santos. Também Edite Estrela, membro do Secretariado Nacional do PS, partilha essa opinião: "O Presidente acabou de ser eleito e não está em campanha. Não faria sentido o PS fazer campanha em relação ao Presidente."
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