Príncipe Carlos. Visionário ambiental que fala com plantas desde criança

por Sara Sanz Pinto, Publicado em 28 de Março de 2011   
Herdeiro da coroa britânica e a mulher passam dois dias em Portugal com a defesa do ambiente como pano de fundo
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No que toca à natureza, o príncipe de Gales sempre soube do que falar. Mas como qualquer pessoa à frente do tempo no assunto em questão, Carlos nem sempre foi tratado com o devido respeito. Devaneios de gente nobre que nada tem que fazer, pensaram muitos enquanto o membro da família real britânica insistia, já em 1986, perante um repórter de televisão, que falar com ervas estimulava o seu crescimento. "Para obter os melhores resultados, tem de falar com os seus vegetais - é muito importante, eles respondem", partilhou Carlos, que desde jovem defende ideais ambientais e medidas sustentáveis. Algumas das suas visões, que em tempos pareciam estranhas, fazem agora todo o sentido. Atrasado, o mundo começa a entendê-lo.

Quando, em 1986, o príncipe de Gales transformou a Duchy Home Farm num espaço de agricultura biológica, a maioria dos consumidores ainda estava sintonizado nos preços baixos, vegetais aberrantes e frangos insuflados a monte nos supermercados. Passados 25 anos, muitos são aqueles que procuram hoje em dia alimentos mais saudáveis e livres de químicos e estão dispostos a pagar um pouco mais a troco da esperança por mais saúde.

Também os alertas reais no que toca às alterações climáticas eram, à data, mais do que certos. "Sei que as minhas ideias são por vezes retratadas como antiquadas. Bem, elas podem ser. Mas aquilo com que me preocupo são coisas intemporais, independentemente dos tempos em que vivemos. Já ando por cá há muito tempo para ver que as ideias que em tempos foram consideradas antiquadas estão agora em voga", afirmou em Novembro de 1994. Desde 1990 que Carlos, actualmente com 62 anos, se preocupa com o aquecimento global e desde a adolescência que fala do impacto da acção do homem no ambiente.

E é esse o principal pano de fundo da visita a Portugal do príncipe de Gales e da mulher, Camilla, a duquesa da Cornualha, de 63 anos, que hoje começa e terminar na quarta-feira. O herdeiro da coroa britânica tem agendada para amanhã uma visita à Vitacress, em Alcochete, uma empresa britânica do grupo RAR que tem apostado fortemente na agricultura biológica sustentável e no processo de compostagem. Outra das visitas, a realizar no mesmo dia, será a passagem por Évora, a primeira cidade em Portugal ligada a uma rede inteligente de energia. O casal real visitará ainda o Hipódromo do Campo Grande, inaugurará o novo jardim das rosas no Palácio de Monserrate, em Sintra, assistirá a um evento de vela em Cascais e visitará a sede da Casa de Protecção de Amparo de Santo António.

A influência da natureza na vida de Carlos é tão marcante que há quem diga que esse foi um dos factores de peso que ditaram o fim do casamento com a princesa Diana. Camilla Parker Bowles sempre foi a antítese da princesa ícone de moda e cosmopolita, parecia estar muito mais próxima do estilo de vida que Carlos sempre apreciou. A relação extraconjugal apenas se tornou pública vários anos depois, após a divulgação de uma conversa telefónica entre ambos. Revelados os factos, Diana, recém-separada de Carlos, não se conteve e numa entrevista à BBC responsabilizou Camilla pelo fim da união.

Os problemas amorosos, contudo, nunca ofuscaram os projectos de Carlos, entre os quais a Foundation for the Built Environment, que aposta em simultâneo na sustentabilidade e na tradição. Crítico do "eco high-tech", o príncipe lançou recentemente a Nature House, um projecto habitacional em que a harmonia entre o ser humano e a natureza é fundamental. Numa visão, meio conservadora meio visionária, que aposta no regressar às raízes de uma forma renovada, Carlos defende a manutenção da identidade local dos sítios. "À medida que o nosso planeta se torna predominantemente urbano, e os recursos começam a escassear, vai deixar de ser suficiente adicionar gadgets aqui e pregar parafusos acolá. Temos de repensar a forma como projectamos as nossas casas, lojas, escolas e a relação entre elas", afirmou recentemente.


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