Obras públicas: terceiro manifesto em onze dias

Publicado em 02 de Julho de 2009   
Assinado por 31 pessoas, a maioria economistas próximos da área socialista, defende as obras públicas estratégicas: TGV e novo aeroporto
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Três manifestos de economistas em onze dias. Hoje é publicado um novo manifesto sobre o tema das obras públicas, liderado por Luís Nazaré, António Mendonça e Brandão de Brito, todos professores do ISEG em Lisboa. O documento "Portugal necessita de investimento público estratégico. Parar é sacrificar o futuro" cumpre exactamente o que o título indica: defende a urgência de avançar com as grandes obras, o TGV e o novo aeroporto, criticando o que apelida de "atitude demissionista" dos 28 economistas que apelaram ao governo para parar e repensar estes projectos.

"Uma economia portuguesa, pequena, aberta e periférica no contexto europeu, é fortemente tributária do investimento público e do papel estratégico do Estado", defende o documento. "É nesta perspectiva que os projectos estratégicos de obras públicas - o novo aeroporto e as ligações ferroviárias de alta velocidade [...] - devem ser considerados e avaliados", acrescenta.

Em termos gerais, este manifesto junta-se ao que foi divulgado no passado fim-de-semana pelo economista José Reis (com 52 assinaturas), na defesa da bondade do investimento público na actual conjuntura de recessão económica. O documento de José Reis insiste mais na questão da economia social e da criação de emprego, enquanto o texto hoje divulgado aborda directamente os projectos do TGV e do novo aeroporto (ver caixa ao lado). De fora ficaram as estradas, não consideradas projectos estratégicos e, por isso, não merecedoras de atenção.

Ambos os manifestos surgiram como oposição ao dos 28 - que integra Eduardo Catroga, Medina Carreira e Campos e Cunha, entre outros -, que consideram que o endividamento externo e público é um dos problemas centrais da economia portuguesa, devendo levar o governo a repensar as obras públicas de "baixa ou nula rentabilidade".

"Nós dizemos que o endividamento é um problema, mas que não nos deve impedir de trabalhar para o futuro", afirmou ao i Luís Nazaré. "Admitimos que, face às dificuldades da conjuntura, possa haver um faseamento das obras, mas sem eternizar a discussão sobre este tema", acrescentou. A participação "nas redes logísticas internacionais" e a "oportunidade de valorização e integração" das empresas portuguesas de tecnologia, energia e ambiente são duas razões invocadas para justificar os projectos do TGV e do aeroporto.

Este novo documento é assinado por 31 pessoas (ver lista na página ao lado), na maioria economistas relacionados directa ou indirectamente com a área política socialista - José Penedos, Consiglieri Pedroso, Murteira Nabo e Fernando Freire de Sousa são alguns exemplos. "Admito que possa haver um pendor de determinado quadrante, mas os outros manifestos também têm o seu", defende Luíz Nazaré. "A nossa preocupação não é político-partidária, mas sim pensar este tema e legar às gerações futuras estes activos importantes."

Sobre se a discussão entre manifestos corresponde a uma cisão clássica entre economistas mais liberais e outros mais defensores do papel do Estado, Nazaré chuta para o canto, dizendo que se trata de "uma redução fácil".

A multiplicação de manifestos de economistas surge num momento em que o governo já adiou os projectos do TGV e do aeroporto para depois das eleições, marcadas para o final de Setembro. Ontem, Filipe Soares Franco - o presidente de uma das associações de empresas construtoras, a ANEOP, e subscritor do manifesto hoje divulgado - lamentou a inexistência de um "consenso" entre as "duas maiores forças partidárias" sobre as grandes obras públicas. Soares Franco garante que vai pedir audiências ao governo, ao Presidente da República e a todos os partidos com assento parlamentar para "explicitar a posição da ANEOP relativamente aos investimentos públicos".


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