Arte

Joana Vasconcelos: Longe do dinheiro, longe do coração

por Clara Silva, Publicado em 02 de Julho de 2009   
A obra "Coração Independente Dourado" foi leiloada por 192 mil euros. Mas o dinheiro vai todo para o Eleven
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Sete mil talheres de plástico do supermercado podem chegar a valer 192 mil euros. Quando a artista plástica Joana Vasconcelos começou a construir a obra "Coração Independente Dourado", em 2004, nunca imaginou que uma compradora anónima desse tanto dinheiro por talheres empilhados num coração de Viana. "Não sei nada sobre a licitadora", confessou Joana Vasconcelos, de 37 anos, ao i. "Apenas que é americana e que tem uma boa colecção de obras de arte. Comprou esta para juntar às outras que tem em casa." E foi simpática ao ponto de emprestá-la para duas exposições no Museu Berardo nos próximos meses.

Na terça-feira à noite uma mulher de chapéu cinzento sentava-se na segunda fila da sala de leilões Christie's, em Londres. Além do "Coração Independente Dourado" estavam em licitação várias obras do artista e escultor norte-americano Jeff Koons e uma fotografia do alemão Andreas Gursky, entre outras obras de arte contemporânea.

Mas a senhora do chapéu não tirava o olho do coração gigante de Joana. Depois de uma pequena competição com um potencial comprador, subiu a fasquia de licitação e arrematou a peça por 192 mil euros.Uma quantia extraordinária que certamente deixou radiantes os sócios do restaurante Eleven, o único em Lisboa com uma estrela Michelin. Foram eles quem puseram todo o dinheiro do leilão ao bolso. Joana Vasconcelos não receberá um tostão, mas a sua reputação aumentou. Bem como o valor das suas obras. "O dinheiro vai para os coleccionadores do Eleven, mas é sempre bom ver uma peça valorizada", explica. "Dita uma intenção e uma forma de ver as minhas obras e, além disso, baliza os preços." E que preços.

O coração milionário estava pendurado no tecto da entrada do Eleven desde a sua abertura, em 2004. Os únicos talheres de plásticos que algum dia passaram pelo restaurante de luxo."Na altura da inauguração encomendaram-me uma peça que se relacionasse com as ideias de tradição portuguesa, luxo e comida", recorda a escultora. "Lembrei--me do costume de se cantar fados nos restaurantes e dos corações de Viana do Castelo da nossa joalharia", explica. Pegou em talheres de plástico, numa corrente de ferro e num leitor de cd com três músicas de Amália Rodrigues e pôs mãos à obra.

Só viu o resultado de pé dois meses e meio depois de se ter debruçado no projecto. "Foi muito curioso porque fiz a peça deitada. O coração é muito alto [tem 3,7 metros] e só quando estava pronto é que o levantámos", conta. Ficou tão surpreendida como quando recebeu a notícia do valor da licitação no leilão. "De repente foi uma surpresa incrível para toda a equipa. Ainda trabalhávamos no atelier na Fundição de Oeiras [agora está instalada em Alcântara] e só quando suspendemos a peça, vimos como era fantástica e grandiosa", entusiasma-se.

Mas o coração nem sempre teve o seu lugar garantido. "Quando estava pronto surgiu a dúvida do local onde seria colocado no restaurante porque era muito grande", conta. Tinha um adversário de peso: "O meu coração tinha a concorrência de um candeeiro, imagine-se", brinca. "Os donos tinham comprado um caríssimo em Itália e não sabiam onde iam pendurar a minha obra." Afinal o "Coração Independente Dourado" conquistou o lugar do lustre no hall do Eleven e aí esteve pendurado até há poucos meses. Três metros e setenta de talheres de plástico em forma de coração que durante cinco anos convidaram o pó a acumular-se e as aranhas a tecerem teias. "Para limpá-lo tínhamos de chamar a equipa da Joana Vasconcelos", conta um dos funcionários do restaurante. "Mas só o limparam duas ou três vezes."

Joana Vasconcelos, que em poucos anos se tornou uma das artistas plásticas mais célebres do país, é reconhecida pelo tamanho gigantesco das suas obras e pelos materiais invulgares que usa. A primeira escultura que fez quando ainda era estudante no Ar.co era feita de 280 espanadores.

Outra das suas obras mais conhecidas, "A Noiva", é um lustre feito de 20 mil tampões e foi a peça principal na Bienal de Veneza em 2005. "É uma obra irónica, brinca com a pureza do casamento. Hoje em dia as noivas já não são tão virgens como parecem e o branco do vestido é enganador", explica.

A escultora inspira-se nas ambiguidades da vida. O famoso sapato feito de panelas e tampas é um bom exemplo disso. Inspirado no sapato que Marylin Monroe calçou no filme "Os Homens preferem as Loiras", é uma réplica do número 37, o mais usado pelas mulheres. Por um lado simboliza o glamour feminino, por outro lembra através dos tachos as tarefas domésticas reservadas às mulheres.

Joana Vasconcelos percorre as feiras do país em busca de materiais. "Neste momento estou a preparar uma obra feita de enxovais do Niza", conta. Com 15 anos de carreira, Joana Vasconcelos já expôs em mais de 14 países. A escultora faz questão de acompanhar as obras e de supervisionar tudo. Leva o nome de Portugal a todo o mundo e isso valeu-lhe ser agraciada este ano pelo Presidente da Républica.

"Quem não acha tanta piada às viagens são os meus gatos. O senhor Ming e o senhor Chiclete ficam com muitas saudades."



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