Entrevista

JP Simões. "Sou tão mau como antes, mas com mais visibilidade"

Publicado em 02 de Julho de 2009   
Diz que é um músico de Outono. Canta uma melancolia que já foi mais alcoólica e deixa o sangue brasileiro tomar conta de si
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Com muito sono. Foi assim que JP Simões nos recebeu em sua casa para uma entrevista, dois dias antes do concerto que vai dar na Casa da Música, no Festival Mestiço (ver caixa). O cansaço explica-se: poucas horas antes de se encontrar com o i, o músico de Coimbra, de 39 anos, apresentou a tese do seu mestrado em História e Teoria da Literatura.

Há quanto tempo não dorme?

Desde ontem às três da tarde. Tive quatro meses para preparar a conferência de hoje, mas só comecei a trabalhar nela 15 dias antes. Foi até à última, escrevi as conclusões uma hora antes de ir para a faculdade. Por outro lado, esta calma calcinada da fadiga excessiva também me permitiu chegar lá menos nervoso. É um estudo sobre a tensão entre o público e o privado em três escritores: Richard Rorty, Henry David Toureau e Oscar Wilde. Não estou muito habituado a fazer conferências, nem a prepará-las de forma intensiva. Normalmente não preparo nada. Chego e falo.

Porquê um mestrado?

Porque sou muito desorganizado e solitário, e senti que estava a ficar um bocadinho burro. Assim juntei três coisas numa só: ter professores, horários e desafios. Sobretudo porque estava sem vontade de ler, não percebia porquê. Por outro lado, depois do meu disco, senti-me desgastado por andar muito tempo à volta do meu discurso, de forma muito individualista e sem interferência do exterior. Tinha algum dinheiro de parte - podia, pela primeira vez, pagar a minha renda - e resolvi investir.

Foi uma maneira de se obrigar?

A princípio foi essa a minha motivação. Depois tornou-se uma coisa familiar, de gente, professores, colegas, autores?

Olhando hoje para si, e recordando os tempos dos Belle Chase Hotel (BCH), dá a sensação de se ter tornado mais melancólico...

Voltei a casa, à casa do senhor. Não sei se tenho uma explicação para isso, a minha postura com os BCH era uma energia movida a álcool, era melancolia alcoolizada.

O seu último trabalho editado é um disco ao vivo, "Boato".

Achei que faria sentido apresentar alguns temas novos num registo ao vivo, onde abrisse o reportório para uma série de projectos que estive a trabalhar e meter também alguns inéditos, que acabaram por ser a maior parte. Assim conseguia ir ainda mais fundo na minha impopularidade. Mas, como dizem os filósofos, filosofar é aprender a morrer. Eu faço isso da minha carreira musical, tornar-me cada vez mais inaudível e obscuro até finalmente desaparecer (risos). Espero bem que não, tenho planos para outras manhãs, outras primaveras.

Está num ponto de viragem?

Há uma altura em que queremos ser uma série de coisas, a ver se acertamos. Dei por mim a procurar alguma honestidade sobre o meu tónus de viver. Mas acho que continuo a ter algum fio condutor, auto-ironia, procurar o humor de baixo para cima, onde aparentemente ele não existe. Trabalhei de forma muito solitária até àquele ponto em que fiquei farto de me aturar. Resolvi estudar e juntei várias pessoas para tocar, como vai acontecer agora na Casa da Música.

O concerto da Casa da Música vai dar para dançar?

Duvido, mas vai ser um concerto com bastante balanço. A ideia é que as pessoas não fiquem como eu estou agora. Como se trata do Festival Mestiço, que é integrado na programação da Casa da Música dedicada ao Brasil, achei que faria mais sentido apresentar o "1970". Aliás, acho que foi por isso que me convidaram. O melhor a fazer era levar temas mais dentro do cruzamento português brasileiro, e mais animadas.

Tem poucos concertos este Verão, uma altura em que os músicos portugueses aproveitam para tocar...

Sou mais um músico de Outono... Fui eu que pedi para não me marcarem mais porque tenho uma tese para entregar em Setembro. Tenho cinco concertos no Brasil nos primeiros 15 dias de Outubro, e mais dois ou três que não tive paciência para pôr no Myspace.

Como é para um português chegar ao Brasil e tocar bossa nova?

É preciso um bocadinho de lata e alguma inconsciência. Sou um tipo que se inspira na música brasileira para fazer música portuguesa. Uma vez um homem disse-me uma coisa engraçada: quem dera que houvesse algum brasileiro a fazer o fado como eu faço a bossa nova. As duas vezes que fui ao Brasil tocar foi sempre por convite. Não tenho uma vasta rede de mafiosos a trabalhar para mim?

Tem laços familiares com o Brasil?

Parte da minha família materna é brasileira, o meu bisavô era de Niterói. Veio para Portugal e foi viver de rendimentos para a Figueira da Foz. Creio que gastou todo o dinheiro no casino e morreu a ouvir vozes. A única herança que me deixou foi a minha avó, a melhor parte da minha constituição humana.

Quando regressou a Coimbra, que cidade encontrou?

Era uma cidade de gente bonita, mas irrespirável no que toca à sua cultura social. Estamos a falar no pós-25 de Abril, de um período de imenso retrocesso moral, em que as pessoas saem de uma revolução sem se revolucionarem em nada. Fizemos uma grande festa, quase torcemos o pé, mas a cidade manteve os seus hábitos medievais, punitivos para quem não fosse das boas famílias. Era agressivo para o mero plebeu.

Como era a sua vida na altura ?

Facilmente me juntei aos subversivos, embora gostasse muito das meninas betinhas. Durante a tarde ia aos cafés dos queques, e à noite vestia o meu interior negro e ia para o café dos dealers, dos punks, do deboche total. Eu era um rapaz ora ensimesmado, ora rebelde. Ouvia Joy Division, Clash, Sex Pistols, Siouxie and The Banshes, Pixies. Nessa altura apareceram bandas interessantíssimas em Portugal, corrosivamente antitédio.

Já tocava numa banda?

Cheguei a fazer uma audição para os Proletários da Cirrose. Pediram-me que cantasse numa danceteria, mas estava uma senhora a limpar o pó e a olhar para mim e eu não consegui.

Como foi parar aos Pop Dell Arte?

Há muito que era a minha banda favorita. Conhecia o Luís Sampayo e, numa noite, depois de assistirmos a um concerto, fomos até à garagem dele tocar umas coisas. Uns dias depois ligou-me a perguntar se não queria fazer parte de uma banda. E fui para a guitarra.

Já cantava?

Sou tão mau como antes, mas com mais visibilidade.

Porque veio para Lisboa?

Tinha 17 anos, vim passar uma temporada com o meu pai. Estava desmotivado, só me apetecia estar alienado? ou coisas piores.

Que coisas?

Agora não interessa nada. Acabei por ficar cá a estudar Comunicação Social. Cheguei a exercer, fiz um estágio na Lusa e especializei-me em islamismo. Foram publicados alguns trabalhos, até que um belo dia chegou um gestor vencedor que iria tirar o défice da Lusa. Mandou 117 pessoas para a rua.

Tem fama de boémio. Confirma-se?

Eu não estou neste estado só porque estive dois dias a estudar e três dias a ler. Antes disso andei por aí.


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