Música

Tiago Sousa. Um dia todos os inquietos vão ser assim

por Tiago Pereira, Publicado em 26 de Março de 2011   
"Walden Pond''s Monk" é o novo álbum. A apresentação ao vivo acontece hoje em Lisboa. O compositor, a obra e o que há de bom em ser inconformado
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O que vai acontecer hoje na ZDB? Nada de perguntar a Tiago Sousa, o homem de todas as alternativas musicadas: "Não sei o que se passa durante os concertos, nunca sei. Preciso de estar concentrado, a música preocupa-me muito". O protagonismo que ocupa nas suas actuações acaba no nome do cartaz, depois é o piano, numa espécie de ditadura que nada tem de opressiva. Como sempre fez, desde que se estreou solitário, em 2006, com "Crepúsculo", até ao momento maior que foi "Insónia", em 2009. Voltando ao calendário que importa, a noite de hoje apresenta "Walden Pond''s Monk", o primeiro disco de Tiago Sousa com direito a edição global em CD e LP. "E então?", pergunta. Isso mesmo, isto não é um marco, não é meta coisa nenhuma. Agradeçamos.

"Walden Pond''s Monk" é um curto manifesto de intenções imensas. "Demoro muito tempo a fazer os discos. Talvez fosse melhor para mim se demorasse menos. Mas nunca o seria para a música, tenho a certeza". Tiago Sousa deixa-nos as palavras e obriga-nos a regressar ao disco depois da conversa. Não compliquemos: a verdade é que minimalismos destes, de grandes dimensões, precisam de espaço para se fazerem gente. Esta música, que não é erudita porque Tiago Sousa não quer - "essa classificação exigiria um sentido académico e disciplinado que não tenho e não procuro" - também não é indie, não é moda urbana para inspirar vestuários ou linhas retro de óculos de sol. Ainda assim, junta os dois mundos como se fossem parentes próximos. "A abordagem à criação pode ser sempre a mesma, ainda que a matéria de trabalho seja diferente. Esta música nasce ao piano, para o piano, mas não é por isso que tem mais regras ou menos liberdade", diz-nos Tiago, o músico que já foi do rock (Goodbye Toulouse ou Jesus The Misunderstood, entre outras aventuras, como a netlabel Merzbau) e que dele guarda preceitos crónicos: "Nada disto nasce de um escrito numa pauta. Começo com uma intenção, uma melodia, daí parte uma harmonia e, quando dou por ela, já não estou no mesmo universo, tudo acabou de mudar e nem sequer me dei conta". Música acidental que nunca sai do trilho. Uma sucessão de paradoxos, de opostos que se atraem.

A inconstância coesa do álbum (porque este trabalho incomoda, de tão ergonómico que é) vem da mente de um compositor a quem não interessa só a música. "Caso assim fosse, seria ainda mais aborrecido do que sou hoje" - nada disso, Tiago. O homem que assina este novo disco e que vai estar hoje ao piano vai da sua bicicleta aos noticiários de dias quentes como se tudo fosse uma descida de bom embalo. Perguntamos-lhe se gasta tempo com as novelas de São Bento, os melhores capítulos dos nossos dias. "É inevitável, há coisas inescapáveis. E não é que sejam folhetins, é porque a preocupação com o que se passa é verdadeira, é problemática e escolher não saber é mais fácil mas bem pior", diz-nos um Tiago Sousa esclarecido. Mas é também toda esta percepção do concreto que o leva a outros destinos, mais distantes no tempo mas sempre seus.

Entre as prioridades das vivências mais recentes esteve Thoreau e os exercícios deste pensador. "Este disco foi feito em forma de homenagem a Thoreau e à sua obra", diz-nos o homem que honra tais escritos logo a partir do título do disco. "Como ir do século XIX a um disco editado pela Immune? Toda esta leitura quer ser lida hoje e tem tudo para ser inspiração para a minha música. Sentido de liberdade, de procura, o ser transcendental, a inquietude e o carácter humanista de Thoreau, trago tudo isto comigo." Depois, vai de embeber desejos e reflexões em exercícios mais ou menos improvisados. "O que é que ouço?" Claro, sabê-lo é curiosidade que precisa de ser satisfeita. "De tudo um pouco mas voltar aos mestres que tive e tenho é sempre bom, de Chopin a Debussy, de Liszt a Schubert". Acompanham-no desde a infância, nas aulas de piano da avó ("ainda hoje a minha fã número 1", assegura), até ao que hoje é o seu próprio mundo, construído com inegável classe e sentido de entrega. "Como outros que não me largam", diz, como quem fala de assombrações boas (que as há). Colocamos o nome de "Bartok" entre aspas porque surge no seu discurso com a paixão de quem descobre sempre mais onde se pensava já não existir novidade. Como na música que faz: "Fugir ao espírito enciclopédico também tem destas coisas, o não repetir, o saber que há sempre mais."

Com tantos e tão distintos exercícios musicados, a expressão artística basta-lhe para custos fixos e pagamentos a débito? "Não. Será que vai um dia? Não sei mas, na verdade, isso não me preocupa. Sim, tenho de agradecer à minha mãe, mas se nesta altura todos precisamos de ajuda e eu encontro-a na minha família, isso é um orgulho." Tal e qual a sua música, para quem a escreve e para os que a escutam.



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