A política portuguesa parece resumir-se hoje às decisões sobre grandes obras públicas. Podemos ter a certeza que o PS é a favor e o PSD contra. Mas ainda mais curiosa que a divisão entre os partidos é a divisão entre economistas e os dois manifestos que foram recentemente publicados nos jornais. O primeiro manifesto navega nas águas do PSD e declara-se contra. O segundo manifesto aproxima-se do PS e das forças à sua esquerda e afirma-se a favor. Como avaliar esta discordância entre os nossos economistas políticos?
O primeiro manifesto é um exemplo comum daquilo a que podemos chamar "a ilusão tecnocrática". Os subscritores do documento não assumem a posição política que é a sua. Pelo contrário, disfarçam essa posição apresentando-se "como eco-nomistas" que emitem uma opinião técnica. Com se as decisões sobre grandes obras, investimento público, intervenção do Estado na economia, etc., não fossem, antes de mais, decisões de carácter político!
Este pensava que a "governação dos homens" podia ser substituída pela mera "administração das coisas". Os políticos poderiam dar a vez aos managers. Hoje em dia em Portugal há muitos economistas que pensam assim e, como eles, a direcção do PSD. Este pensamento equivale ao esvaziamento da democracia e da política no seu aspecto mais nobre: a decisão livre dos cidadãos sobre o tipo de sociedade em que querem viver.
O segundo manifesto é um exemplo daquilo a que podemos chamar "a ilusão ideológica", ou seja, a ideia de que está sempre tudo em aberto no que diz respeito à transformação política da sociedade e não há limites para aquilo que podemos fazer. Os subscritores deste manifesto defendem as obras públicas em nome do "combate ao desemprego", mas nunca levantam o problema dos limites que o endividamento cria ao investimento. É como se fosse possível tudo fazer sem atentar nas limitações técnicas e nos efeitos perversos das decisões políticas. De acordo com esta linha de pensamento, tudo se resume a saber se somos a favor ou contra a intervenção por princípio, se somos socialistas ou neoliberais.
A origem intelectual desta ilusão é a visão utopista da transformação da sociedade. Uma parte da esquerda portuguesa continua a pensar desta forma e, consequentemente, a menosprezar a ideia de que as decisões políticas devem ser apoiadas no melhor conhecimento disponível - que lhes apresenta limites - e não apenas em actos voluntaristas.
Ora devemos evitar cuidadosamente ambas as ilusões. Por um lado, as grandes obras têm sempre um preço e efeitos perversos potenciais que é necessário conhecer. Por outro lado, a decisão sobre esses projectos deverá sempre depender de uma discussão política e não técnica.
Professor universitário de Teoria Política




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