Primeiro plano

Entre duas ilusões

por i com Agência Lusa, Publicado em 02 de Julho de 2009   
Dividida entre as visões tecnocrática e ideológica, a política portuguesa parece resumir-se às decisões sobre as grandes obras públicas
Opções
a- / a+

A política portuguesa parece resumir-se hoje às decisões sobre grandes obras públicas. Podemos ter a certeza que o PS é a favor e o PSD contra. Mas ainda mais curiosa que a divisão entre os partidos é a divisão entre economistas e os dois manifestos que foram recentemente publicados nos jornais. O primeiro manifesto navega nas águas do PSD e declara-se contra. O segundo manifesto aproxima-se do PS e das forças à sua esquerda e afirma-se a favor. Como avaliar esta discordância entre os nossos economistas políticos?
O primeiro manifesto é um exemplo comum daquilo a que podemos chamar "a ilusão tecnocrática". Os subscritores do documento não assumem a posição política que é a sua. Pelo contrário, disfarçam essa posição apresentando-se "como eco-nomistas" que emitem uma opinião técnica. Com se as decisões sobre grandes obras, investimento público, intervenção do Estado na economia, etc., não fossem, antes de mais, decisões de carácter político!

Curiosamente, a origem intelectual desta visão tecnocrática da política é o pensamento de um socialista francês do século 19: Claude-Henri de Saint-Simon.

Este pensava que a "governação dos homens" podia ser substituída pela mera "administração das coisas". Os políticos poderiam dar a vez aos managers. Hoje em dia em Portugal há muitos economistas que pensam assim e, como eles, a direcção do PSD. Este pensamento equivale ao esvaziamento da democracia e da política no seu aspecto mais nobre: a decisão livre dos cidadãos sobre o tipo de sociedade em que querem viver.
O segundo manifesto é um exemplo daquilo a que podemos chamar "a ilusão ideológica", ou seja, a ideia de que está sempre tudo em aberto no que diz respeito à transformação política da sociedade e não há limites para aquilo que podemos fazer. Os subscritores deste manifesto defendem as obras públicas em nome do "combate ao desemprego", mas nunca levantam o problema dos limites que o endividamento cria ao investimento. É como se fosse possível tudo fazer sem atentar nas limitações técnicas e nos efeitos perversos das decisões políticas. De acordo com esta linha de pensamento, tudo se resume a saber se somos a favor ou contra a intervenção por princípio, se somos socialistas ou neoliberais.
A origem intelectual desta ilusão é a visão utopista da transformação da sociedade. Uma parte da esquerda portuguesa continua a pensar desta forma e, consequentemente, a menosprezar a ideia de que as decisões políticas devem ser apoiadas no melhor conhecimento disponível - que lhes apresenta limites - e não apenas em actos voluntaristas.
Ora devemos evitar cuidadosamente ambas as ilusões. Por um lado, as grandes obras têm sempre um preço e efeitos perversos potenciais que é necessário conhecer. Por outro lado, a decisão sobre esses projectos deverá sempre depender de uma discussão política e não técnica.

Professor universitário de Teoria Política



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close