Editorial
A primeira má notícia que deu Passos Coelho
por Ana Sá Lopes, Publicado em 25 de Março de 2011
O que vem aí, com Sócrates ou com Passos Coelho à frente do governo regional de Lisboa, é uma tragédia sem apelo nem agravo
Só uma vez José Sócrates levantou a voz contra as políticas de austeridade da Europa, que se arriscam a rebentar com o sonho lindo dos pais fundadores, desencadeado pela partilha de vantagens económicas. Foi no dia em que foi conhecida a sua viagem a Berlim para discutir com Angela Merkel aquilo que depois ficaria consubstanciado no PEC IV, o tal que foi escondido de toda a oposição e do Presidente da República e esta semana convenientemente chumbado no parlamento pela chamada "coligação negativa".
Angela Merkel lamentou ontem que o - também seu - plano de austeridade tenha sido rejeitado pelo parlamento legítimo de Portugal e Passos Coelho, o culpado principal, foi obrigado a explicar à chanceler de todos nós que não se revia na coisa. Mesmo sem pedir formalmente "desculpa" ao poder máximo, Passos Coelho teve de arranjar uma desculpa: em Bruxelas repetiu que assumiria o compromisso de manter o défice nos limites draconianos a que o governo em funções já se tinha comprometido e, claro, como não podia deixar de ser, a fazer tudo aquilo que um líder da oposição rejeita mas o indigitado, por força das coisas, possível novo comandante em chefe de um país periférico, aceita: aumentar os impostos.
Foi uma contradição com tudo o que Passos Coelho até agora defendeu, mas não foi uma gafe. Passos Coelho sabe perfeitamente que, se José Sócrates não tinha praticamente margem de manobra nenhuma para contribuir para uma alteração das regras de financiamento europeu, ele não terá mais. De resto, comunga com Merkel - se não o apoio ao PEC de Sócrates - a partilha da família política europeia, o Partido Popular Europeu.
O que vem aí, com Sócrates ou com Passos Coelho à frente do governo regional de Lisboa? A mesma coisa - uma tragédia sem apelo nem agravo. A entrada do FMI, do fundo de resgate, ou do que for - defendida neste momento de uma forma clara pelo presidente do eurogrupo, Jean-Claude Juncker, vai agravar tudo aquilo que já está em curso: uma política sufragada à mais alta escala europeia e que conduz inapelavelmente
a uma recessão que poderá pôr as economias europeias de pantanas durante muitos anos.
A situação dos trabalhadores portugueses, dos desempregados, dos pensionistas já é muito grave. Não há dúvida que o governo se aplicou em fazer um Orçamento à imagem e semelhança das políticas do FMI. Mas o fim do 13.o mês,
os cortes salariais até 20%, os cortes nos gastos do Estado para prestações sociais e a falta de confiança que contaminará o investimento nas empresas serão pagos muito caros.
O anúncio do aumento do IVA é só a primeira má notícia que Passos Coelho, provavelmente sem gosto nenhum, foi obrigado a dar aos portugueses. O que se seguirá, na iminência de um resgate do país pelo FMI ou pelo fundo europeu com outro nome, será seguramente muito pior.
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