Fundo. Compra de dívida exige a mesma austeridade

por Nuno Aguiar, Publicado em 24 de Março de 2011   
Em Bruxelas há poucas dúvidas de que o chumbo do PEC vai equivaler à antecipação do pedido de ajuda de Sócrates
Opções
a- / a+
A possibilidade de o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) comprar dívida pública no mercado primário foi mostrada em Portugal como uma vitória do governo, permitindo um alívio do custo que o Estado português tem pago para se financiar. No entanto, e como temos reaprendido nos últimos meses, na Europa não há almoços grátis e pedir ao Fundo para realizar esse tipo de operações terá um custo muito parecido com aquele que foi pago por Grécia e Irlanda nas suas intervenções.

"Portugal não conseguirá que o Fundo intervenha na compra de obrigações sem que seja aplicado um programa de austeridade muito duro. A Alemanha não iria deixar", explica ao i uma fonte da Comissão Europeia, referindo que adquirir títulos emitidos pelo Estado terá condições muito similares às que seriam exigidas se fosse pedido um empréstimo. "O Fundo só irá ao mercado em situações muito excepcionais. Por exemplo, quando a Grécia voltar a emitir dívida, poderá necessitar de algum apoio inicial."

O governo português, tal como o Banco Central Europeu (BCE), preferia que o fundo pudesse comprar dívida em mercado secundário - um papel desempenhado actualmente pelo BCE. No entanto, se é verdade que esse desejo não foi concretizado, José Sócrates poderá ter conseguido um prémio de consolação. "A compra de obrigações não terá a participação do FMI (Fundo Monetário Internacional). O governo português pode tentar utilizar isso como uma vitória."

Apesar de o FMI valer apenas um terço do Fundo, o primeiro-ministro tem falado de uma resistência do governo à instituição de Washington e não à ajuda que vem de Bruxelas.

Estas revelações sobre o custo de pedir ao FEEF para comprar dívida foram feitas ontem ao i antes da votação das resoluções sobre o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) na Assembleia da República. Questionada sobre as consequências que um chumbo e a eventual demissão do governo poderiam trazer, a mesma fonte da Comissão mostrou-se apreensiva. "É muito complicado prever, mas deverá ser difícil Portugal evitar pedir ajuda se o PEC for chumbado."

Juros nos 8,2% Em reacção a todo o turbilhão financeiro e político que se vive actualmente em Portugal, assim como ao facto de o BCE ter fechado a torneira à compra de obrigações novamente, os juros da dívida nacional chegaram ontem a níveis surreais - se o "insustentável" está nos 7%, o que dizer agora dos 8,2% que o mercado está a exigir para negociar títulos nacionais a cinco anos? Mas não é só nesse prazo. A dívida a sete e nove anos está nos 7,9%, enquanto todas as outras maturidades estão acima de 7,4%. "Os mercados estão já a incorporar uma intervenção do FMI", comentou Richard Maguire, analista do Rabobank, ontem, citado pelo "Negócios" online.

E é neste cenário kafkiano que Portugal vai chegar ao Conselho Europeu que hoje arranca em Bruxelas. Este conselho deve tornar definitivas as linhas gerais aprovadas na cimeira de 11 de Março. Além das dúvidas em torno de Portugal, nos últimos dias começaram a surgir notícias de que a Finlândia poderá não ratificar o acordo devido a pressões dos partidos da direita para não ser dado mais dinheiro para resgates. A Finlândia vai a votos em Abril e, tal como Berlim, teme ser penalizada por um sentimento mais antieuropeu dos eleitores. Com F. P. C.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close