"Eu procurava outra forma de o PS se apresentar às eleições"
por Luís Claro e Filipa Martins, Publicado em 17 de Março de 2011
O ex-deputado do PS, Medeiros Ferreira, defende que Sócrates não deve ser o candidato do partido se as eleições forem antecipadas
Medeiros Ferreira quis fazer esta entrevista no bar Pavilhão Chinês, em Lisboa, e não escondeu a preocupação com os tempos difíceis que o país atravessa. Por isso, diz o ex-deputado socialista, é inevitável um governo de "concentração nacional", que represente o maior número de portugueses possível. O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Mário Soares pensa que José Sócrates não é a melhor solução para o partido se as eleições forem antecipadas e deixa uma pergunta: "Porque não António Costa?" Fala do futuro, mas também do passado, no qual foi um dos principais protagonistas da entrada de Portugal na comunidade europeia, e lamenta que o país tenha deixado de reflectir sobre como se deve inserir na construção europeia. "Quase me comovo quando vejo um grupo a estudar o país", diz.
O governo apresentou novas medidas de austeridade. O PSD diz que vai rejeitar o novo PEC. Qual é a saída para esta situação?
Eu concordo com a necessidade de eleições antecipadas. Isso parece-me claro. Defendi durante muito tempo uma solução no actual quadro parlamentar, uma espécie de governo de concentração nacional com o apoio de uma maioria na Assembleia da República que conseguisse levar a legislatura até ao fim. Mas os partidos não estão ainda disponíveis para isso.
Ainda?
Digo ainda porque estou convencido que vamos acabar com um governo de concentração nacional, perante as dificuldades que vão surgir. O que indica a apresentação do pacote das medidas de austeridade é que o governo quer, consciente ou inconscientemente, marcar a data das eleições sem tomar a responsabilidade da abertura da crise política, e esta atitude não está isenta de racionalidade. Já se percebeu que o PSD quer queimar este governo em lume brando.
Já não é possível conseguir um consenso?
Nada disto é fácil e não é fácil uma solução. Vai ser cada vez mais difícil governar o país. Desse ponto de vista, quem conseguir passar dos conceitos de consenso, pacto ou compromisso para a realidade é um grande talento político. Provavelmente nem esse consenso ou esse pacto pode ser feito dentro daquilo que as pessoas pensam. Será, se calhar, uma coisa diferente. As pessoas quando falam em compromissos estão a pensar numa aliança entre o PS e o PSD, mas eu acho que seria uma solução fraca. Em todo o caso no quadro actual do parlamento nenhum dos dois partidos está disponível para o fazer. Daí a necessidade de novas eleições.
Já?
Já, porque já se percebeu que um possível governo de concentração nacional, no actual quadro parlamentar, que permitisse que a legislatura fosse até ao fim, não é possível. Em grande parte pela posição pouco activa do Presidente da República, porque ele quer que a crise política seja gerida na própria Assembleia da República.
Compreende que seja difícil a oposição fazer um acordo com José Sócrates?
Eu acho que o erro de José Sócrates - não tenho nada de lhe dar conselhos, porque toda a gente diz que ele é um grande político - foi não ter sido o candidato presidencial do PS. Ele meteu-se numa camisa de onze varas. Se ele fosse candidato, o seu futuro tinha uma estrada. Em França, só para dar um exemplo, não teria outro remédio. A cultura política francesa não lhe permitiria fazer de conta que daria um candidato por ele.
José Sócrates já anunciou que vai recandidatar-se nas próximas eleições legislativas.
Ele vai lutar nas próximas eleições, e tudo vai depender do resultado, mas o país terá de ter um governo e os partidos vão alterar as suas posições. Possivelmente José Sócrates, se perder as eleições, sai, e eu acho que sai mal. Só depois dos resultados das eleições é possível ver que governo é possível, mas não vai ser fácil fazer pactos ou compromissos.
Se o PSD e o CDS conseguirem a maioria absoluta nas próximas eleições, o problema da governabilidade não está resolvido?
É um governo para durar um ano e meio. A direita não quis tomar as medidas de austeridade que o PS destemidamente tomou em 2006. Nós já nos esquecemos que a coligação PSD/CDS não tomou as medidas de austeridade que o país estava a precisar.
Passos Coelho está a deixar o PS tomar as medidas mais difíceis?
Eu sempre disse aos meus amigos políticos: reparem que a direita não quis tomar essas medidas. Nada me indica que, com esta cultura, eles venham a tomar medidas difíceis, e não se vão tomar medidas de austeridade só por tomar. É necessário que elas sejam estudadas.
E têm sido planeadas?
Não, e vai ver que daqui a dois ou três anos vai dizer-se que afinal este medicamento que se está a aplicar à Grécia, à Irlanda e a Portugal tem efeitos secundários muitos negativos.
Nós tínhamos alguma capacidade de resistir a este medicamento, como diz?
Nós estamos a resistir. Portugal não entrou na primeira linha dos países assistidos porque hoje estaria na situação da Irlanda e da Grécia.
E qual é a alternativa?
Não haverá salvação europeia enquanto não houver uma mudança de resposta à crise dos estados com dificuldades financeiras, que só pode ser na seguinte linha: o Banco Central Europeu tem de se tornar um banco verdadeiramente federal. Não faz sentido que esse fundo de resgate seja um fundo intergovernamental. Já existe o Banco Central e não se percebe a razão de fazer um tesouro à parte.
Nesse aspecto o primeiro-ministro tem razão, porque tem resistido ao FMI e à solução que foi encontrada para países como a Irlanda ou a Grécia?
Tem na resistência e em ganhar tempo. Se Portugal se aguentar até haver uma solução global, isso será uma excelente política. Tenho receio é que Portugal não aguente o tempo suficiente e entre numa espécie de ajuda externa no momento em que não estejam definidos os parâmetros de uma solução geral, que passa pela redefinição do perfil das dívidas ou pela compra dos eurobonds.
Mas Portugal tem outros problemas, que, em conjunto, podem ser muito complicados de resolver. Tem, além das questões da dívida e do défice, uma justiça que não funciona, uma educação que muitos questionam...
Portugal foi imprevidente. Não é só o Estado. Todo o sistema financeiro foi improvidente. Nós fomos à praça internacional quando o crédito era fácil e barato e quando demos por nós estávamos endividados. A situação requer uma solução europeia e internacional se necessário. Se não houver, Portugal tem de fazer uma política activa para sair de onde estamos.
E agora que pode fazer?
Por exemplo, a questão dos investimentos públicos. Os fundos europeus estão disponíveis e deviam reorganizar-se as obras públicas sem o aumento do orçamento comunitário e sem a necessidade de os países em dificuldades pedirem dinheiro emprestado para essa obras. Seria necessário reorganizar os planos de investimento para que se pudesse ir para a frente com certas realizações. Podia ajudar, em dois ou três anos, a atenuar os efeitos das chamadas crises assimétricas da zona monetária euro.
Esse não foi o modelo com que vivemos até aqui?
Não, não é isso que defendo. Uma coisa é um modelo quase único em que a indústria é quase substituída pelas obras públicas. Eu concordo com a necessidade de aumentar as exportações, mas é possível fazer certo tipo de investimentos públicos sem que os estados tenham de pedir dinheiro emprestado e a comunidade europeia só tem de mudar o regulamento. Têm de se propor coisas alto e bom som.
E será que nos ouvem?
Pode haver aqui também uma estratégia de desmembramento da União Europeia. Não sabemos.
É um risco que a União Europeia está a assumir?
É um dos riscos, mas se houver boas ideias sobre a manutenção da comunidade europeia isso não acontece. Eu costumo dar aos meus amigos o exemplo do Império Austro-Húngaro nas últimas décadas. Era um império diversificado e burocratizado, no qual não havia inovação política e havia até uma certa cristalização. Como o desenvolvimento dos territórios era desigual, a solidariedade e a coesão desapareceram. Temo que isso aconteça com a União Europeia. Temos de aprofundar a União Europeia, mas ela não se organiza sem nós.
Embora a construção europeia tenha sido feita à margem dos cidadãos, ou não?
Houve uma tentativa de aproximação. Nós passamos com o Tratado de Lisboa de uma tentativa da Europa dos cidadãos para o regresso à Europa das chancelarias. Repare que a Alemanha conseguiu a ratificação do Tratado de Lisboa sem referendo. Sempre com a ajuda inestimável de duas personalidades europeias: o senhor Sarkozy e o primeiro-ministro de Portugal. Mas, mal a ratificação do Tratado de Lisboa entrou em vigor, a Alemanha tornou-se unilateral, e isso é muito curioso. A Alemanha neste momento tem uma política unilateral, que tem de acabar.
Acha que vai acabar?
É contra os tratados, é contra o compromisso e a própria Alemanha não pode estrear a sua supremacia política, económica e financeira na União Europeia desta maneira. Vai ter de arrepiar caminho, porque fica sem aliados e a gestão da União Europeia sem aliados é muito difícil.
Voltando a Portugal. Pensa que o primeiro-ministro tem um problema de credibilidade, como alguns dizem?
Os governos gastam-se. Independentemente de a razão ser a falta de credibilidade ou a inacção. Dá impressão que o PS está a precisar de um refrescamento. Isso para mim é claro.
José Sócrates não deve ser o candidato do PS nas próximas eleições?
Eu teria tendência a procurar uma outra forma de o PS se apresentar às eleições.
Tem algum nome preferido?
Há soluções políticas e soluções institucionais nestes casos. Uma solução institucional seria alguém do governo que se tivesse distinguido por uma boa prestação política. Outra solução institucional é o presidente da Assembleia da República. Depois há as soluções políticas. Toda a gente fala em António Costa, que é uma solução política e até quase institucional, porque aparece informalmente como o número dois do PS.
Ele já disse que tenciona recandidatar- -se à Câmara de Lisboa em 2013.
As pessoas candidatam-se a tudo menos àquilo que é preciso. A Câmara de Lisboa é muito importante, mas às vezes há outras coisas que fazer. Depende das circunstâncias. E há uma coisa que eu gostava de dizer em público ao António Costa: ele não vai ser candidato a Presidente da República sem passar de novo pelo governo. As coisas já não se fazem assim. Aconteceu com o Jorge Sampaio em certas circunstâncias. António Costa terá de voltar ao governo, porque, aliás, era o melhor governante na altura do governo de José Sócrates. E quando se fala numa solução, porque não António Costa? Haverá sempre soluções, mas também não o quero desinquietar da obra que ele está a fazer como presidente da Câmara de Lisboa, e eu não estou a propor ninguém.
Quem preferia?
Não tenho certezas neste momento. Eu sou mais por uma solução colegial. Vejo mais um bom governo. Há vários tipos de governo, mas desde que faça frente aos problemas do país. É preciso transmitir alguma coisa de verdadeiro às populações. E é para isso que servem novas eleições. Há a necessidade de transmitir refrescamento, vigor e autenticidade.
Vai ao congresso do PS?
Não. Nessa altura vou estar nos Açores.
Foi convidado para ser candidato à presidência do PS pelas candidaturas que vão concorrer às eleições directas contra o actual secretário-geral?
Não cheguei a ser convidado. Alguém sugeriu o meu nome, mas não serei candidato. Acho muito importante o trabalho de alguns grupos dentro do PS e tenho uma grande admiração pela forma como António Brotas [candidato à liderança do PS], para dar um nome, tem mantido uma actividade cívica extraordinária. Ele preocupa-se com problemas concretos e foi um excelente secretário de estado da Educação do sexto governo provisório. As pessoas já não se lembram...
Nem as pessoas nem o PS...
Este PS já não tem nada a ver com o PS de 1976. São coisas muito diferentes. O dr. Mário Soares ainda é o único traço de união entre o PS dessa altura e este.
Se houver eleições, deve ser adiado o congresso para que possa ser dada a hipótese de aparecerem novas candidaturas?
Sim, se houver no prazo de 60 ou 90 dias, o próprio congresso perde o contexto.
Foi recentemente homenageado com a publicação de um livro - O Longo Curso, Estudos em Homenagem a José Medeiros Ferreira. Acha que tem sido suficientemente aproveitado pelo seu país?
Todos nós pensamos que o país nos podia aproveitar melhor. Uma coisa é certa: eu estive sempre disponível, mas nunca disputei cargos. Aliás, não gosto do termo "carreira". Nem de carreira política, nem de carreira universitária. Prefiro o conceito de actividade. Sou universitário e optei por isso para ser livre.
Antes do 25 de Abril foi para a Suíça, na mesma altura que outros portugueses, como António Barreto, e foi o primeiro português a ter o estatuto de exilado político. Foi uma grande vitória política?
Sim, fui o primeiro a pedi-lo e a obtê-lo. Eu sou um bocadinho institucional e formalista quando essas coisas são importantes politicamente. Foi uma vitória política e mais tarde muitos dos meus amigos que lá estavam também pediram e também obtiveram. A Suíça portou-se muito bem desse ponto de vista.
É de lá que faz a comunicação ao congresso da oposição democrática em Aveiro, no ano de 1973, na qual faz praticamente a antecipação do que veio a acontecer no 25 de Abril.
De certa maneira. De facto, digo que as Forças Armadas já tinham oferecido um período suficiente ao regime político para resolver a questão colonial e seriam elas, por diversos factores, a derrubar a ditadura. E teriam de enfrentar três problemas que não podiam adiar: descolonizar, democratizar e desenvolver. Isso está na tese. Não estou a dizer que os três "d" foram copiados, mas foram certamente inspirados, e tenho orgulho intelectual e político na tese. Eu estava no exílio e toda a gente dizia que estava um bocadinho afastado da realidade. Quando eu cheguei a Portugal eles eram todos adeptos do MFA (Movimento das Forças Armadas) e eu era o mais reticente em termos do que se pretendia, que era a construção da democracia política pluralista à base dos partidos políticos.
E quando voltou da Suíça entrou para o PS.
Em Abril de 1975. Sou candidato a deputado à Assembleia Constituinte como independente ainda nas listas do PS e depois entrei para o partido e cheguei a ser convidado por Mário Soares para ministro da Educação, quando o professor Vitorino Magalhães Godinho se demitiu em 1974.
O que recusou.
Sim, achava que uma pessoa como eu, embora com algum passado político, só devia de ir para o governo depois de ser eleito deputado.
As pessoas com mais qualidade afastaram-se da vida política?
O poder político perdeu poder. Com a entrada de Portugal no sistema monetário europeu e a privatização da banca passou-se da república dos empresários para a república dos financeiros, que tem várias expressões, mas enfraqueceu o poder político, que é visto muitas vezes como uma espécie de epifenómeno dos grandes grupos financeiros ou muito dependente dos grandes negócios.
E é dependente dos grandes grupos financeiros?
Portugal é um país onde não há crescimento económico, mas onde há grandes negócios, e isso enfraqueceu o poder político. O resultado é que muita gente deixou de ir para a política. Se o poder político é uma espécie de epifenómeno, as pessoas afastam-se, porque não se querem sujeitar a estar ao serviço de outras coisas que não sejam as suas próprias convicções. Por outro lado, a actividade política - e vou dizer uma coisa muito impopular - não tem boas condições materiais de atracção.
Os políticos ganham mal?
Não há condições de poder, porque está enfraquecido, e não há condições materiais de atracção para pessoas que estejam disponíveis para ser úteis e não ficar numa situação de dependência. Por outro lado, há o próprio funcionamento interior dos partidos, que vai gerando uma espécie de terceira geração de dirigentes, que já andam nisto há 30 anos e têm uma noção burocrática do modo de fazer política.
Defende que os governantes ganhem mais?
Falar nisto num momento de crise não faz sentido, mas devia ter sido feito com alguma antecedência. Hoje em dia a classe política tem mesmo de se sacrificar.
Os partidos políticos não estão também muito fechados, sem capacidade para reflectir sobre os novos problemas? O PS tem as Novas Fronteiras...
Isso não existe. É só para aparecer na televisão, mas não é só o PS. O PSD é a mesma coisa. E não foi só o PS que deixou de pensar o país. Eu quase me comovo quando vejo um grupo a estudar o país. Já não há pensamento estratégico sobre o país e não há um pensamento estratégico que parta do plano nacional para se entender como Portugal se deve inserir na integração europeia.
É uma das razões de alguma falta de orientação?
Andamos aqui à deriva, mas não é de agora. Andamos à deriva há 20 anos em relação à natureza da nossa participação na integração europeia. Abandonámos qualquer pensamento e até fomos dos poucos países a fazer isso. Eu estou à vontade porque pedi a adesão de Portugal à comunidade europeia.
Quais são as consequências dessa ausência de estratégia?
Não temos aliados e estamos dependentes da potência hegemónica, que não está a saber gerir a sua hegemonia actual na construção europeia. O que a Alemanha está a fazer é desastroso para ela própria, porque vai ficar sem aliados na União Europeia. A senhora Merkel vai ficar como alguém que conduziu mal uma fase de natural supremacia da Alemanha na construção europeia. Vai perder as eleições.
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