O ex-líder social-democrata Marcelo Rebelo de Sousa considerou hoje que o primeiro-ministro apresentou em Bruxelas "um cheque sem cobertura", sem garantia de viabilização, porque a situação do país "é muito mais grave" do que o Governo tem dito.
José Sócrates levou a Bruxelas na passada sexta-feira "um cheque sem cobertura, porque não tinha cobertura do Presidente e do Parlamento, essencial para o cheque valer", disse Marcelo Rebelo de Sousa, num almoço do American Club em Lisboa, referindo-se às medidas do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) 4.
O primeiro-ministro, acrescentou o constitucionalista, explicou na segunda-feira por que motivo o fez: "Se eu não tenho apresentado aquilo naquele momento, era dramático para o país o que vinha aí, a entrada do fundo europeu e do FMI".
"A razão pela qual ele apresentou o cheque sem cobertura é porque a situação do país é muito mais grave do que ele nos tem dito, porque é tão urgente que não podia esperar 15 dias pela cimeira europeia, do fim do mês, e por uma conversa com o Presidente e com o líder da oposição. Era tanta a pressão decorrente da gravidade da situação, que tinha de avançar imediatamente", sustentou Marcelo Rebelo de Sousa.
Para o antigo presidente do PSD, o primeiro-ministro tem agora 15 dias, até à realização da cimeira, "para demonstrar que consegue a cobertura para o cheque e que não é um fator de perturbação entre PS e PSD".
O comentador político disse ficar "uma dúvida", questionando se "quando se diz que este pacote é fundamental para evitar a iminente entrada do fundo europeu e do FMI, quer dizer que o pacote não envolve nada em termos de fundo europeu e de FMI, ou envolve já alguma coisa que não se quer assumir internamente".
"Isto vai ser esclarecido nos próximos dias, porque é função do Presidente da República e do PSD esclarecer exatamente o que foi acordado, e se há justificação para o PSD rever a sua posição", sustentou.
Na ótica de Marcelo Rebelo de Sousa, "a confiança dos interlocutores -- mercados financeiros e parceiros europeus -- é fundamental e se eles não acreditarem que isto está a ser maravilhoso, atuam como se não fosse maravilhoso".
Sobre os motivos que poderão ter levado o primeiro-ministro a apresentar estas propostas sem dar conhecimento ao Presidente da República nem as discutir com o PSD, Rebelo de Sousa discordou da opinião do deputado do PSD Pacheco Pereira de que Sócrates quer precipitar eleições.
"Não quis admitir ao país, ao Presidente, ao Parlamento admitir, que a situação era tão grave? Era apenas uma questão de estilo, de arriscar?", questionou.
O comentador considerou ainda que o caminho de José Sócrates "é estreito demais para a tarefa nacional que se impõe".
"Este comportamento do primeiro-ministro reduziu a solução de apoio ao pacote ao mais estreito que jamais existiu, porque afastou as centrais sindicais e patronais, afastou o PSD e o Presidente. Fica o partido [socialista] e mesmo no partido, há vozes, como Mário Soares, a dizer que isto tem de ir para eleições", sublinhou.




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