Caderno de notas de um manifestante

por Hugo Gonçalves, Publicado em 14 de Março de 2011   
Uma miúda levava um cartaz onde se lia: "Quero ser feliz". Há melhor razão para nos manifestarmos?
Opções
a- / a+
01. Há mais que um cartaz com a mesma mensagem. Um desses cartazes, nas mãos de uma miúda, aparecerá numa fotografia de jornal. Diz: "Quero ser feliz".

02. Uma amiga estava preocupada: que calçado levar? Há muitas estreias. É a primeira vez que participo numa manifestação. Eu levo ténis. Basta sair para a rua para perceber que é uma tarde diferente. E isso, só por si, é um alívio na repetição dos dias cada vez mais iguais e apocalípticos. Nos Restauradores, meia hora antes da manifestação, as pessoas caminham e conversam e procuram amigos. As pessoas mexeram-se, juntaram-se tocaram-se. Isso tem de valer alguma coisa. Um cínico vê nisto um desperdício de tempo. Um cândido vê uma utopia. Os pragmáticos, que julgo serem a maioria, sabem que há um meio termo entre a ingenuidade e a descrença.

03. Há muitas crianças na manifestação, filhos de amigos, pequenas caras curiosas e atentas com capacidade para fazerem sorrir quem por elas passa sem precisarem de piadas elaboradas ou truques de magia. Os miúdos são um extraordinário mecanismo de felicidade, um antídoto para os skins que descem a avenida. Não vejo suásticas nem slogans fascistas. Transportam apenas bandeiras negras e de Portugal. Porque os observo, não dou conta que um amigo, que não via há meses, se aproxima e diz: "Já viste esses gajos?" Não sou esotérico nem fã de literatura fantástica, mas quando passam por mim, com os seus blusões pretos e caras tatuadas, é como se o som da rua baixasse algumas oitavas, como se houvesse uma mudança de energia que faria desmaiar um perito em Feng Shui, a chegada das nuvens negras de Mordor.

Estão cá partidos que tentam levantar bandeiras e são assobiados (PCP). Há partidos que não trouxeram bandeiras (BE) mas que usam boinas. Há tunas e demagogos e camponeses a beber vinho do garrafão. Continuo a achar que as crianças às cavalitas dos pais são o melhor retrato da manifestação. Uma amiga diz-me, de mão na barriga, que está grávida.

04. Talvez seja sinal de maturidade: esta geração que insulta o computador quando uma página de internet demora mais de meio segundo a abrir, que olha para o telemóvel com a frequência com que uma mãe olha o berço do filho doente, foi paciente com a marcha lenta, por vezes parada, da manifestação. O povo é sereno.

05. Nem todos têm a eloquência ou a correcção política de alguns políticos de carreira. Mas sabem o que querem dizer, como o puto que grita para o amigo no outro lado do telemóvel: "Estou na manifestação, caralho. Foda-se, está uma loucura." O povo, como os apaixonados, também tem problemas de expressão, e é por isso que a multidão encontra na música a sua voz. Canta-se Homens da Luta, Zeca Afonso, Deolinda, o hino nacional. E grita-se: "Já chega." É o grito que oiço mais vezes: "Já chega".

06. Encontro uma alemã que vive há anos em Lisboa. Acaba de regressar de uma viagem ao seu país. Quando pergunto se os compatriotas demonizam os portugueses por causa do nosso despesismo, laxismo orçamental e horas de sol, ela informa-me que os alemães andam preocupados com outras coisas. Fico mais descansado. Talvez assim os contribuintes alemães não saquem da chibata, como temem alguns, quando virem os Homens da Luta no palco do Festival da Eurovisão.

Um amigo, pai há pouco tempo, ex-imigrante em Itália, fala-me do escritor Roberto Saviano e da expressão que usou para descrever os mecanismos de poder em Itália, o estado podre da república: la macchina del fango - a máquina da lama, aquilo que nos impede de mudar as coisas, aquilo que nos puxa para baixo, para dentro da máquina. Se Saviano tem razão quanto à existência de tal aparelho, esta manifestação é uma pedra na engrenagem da máquina.

07. Um amigo de infância, que nunca imaginei numa manifestação, espera-me junto ao Rossio. Bebemos um imperial (o povo tem sede) e ele comenta com outra pessoa as limitações do seu orçamento. Tenho amigos em situações piores. Mas confesso que, por vezes, esqueci-me dos precários durante a manifestação. Tal como me esqueci das chagas da justiça e da educação, da corrupção sem castigo, do caciquismo, da inutilidade do mérito, da condição enferma do regime. É possível que seja um mau manifestante ou que a minha impaciência geracional impossibilite que me concentre nos motivos que me trouxeram aqui. Mas a verdade é que aquilo que levo da manifestação tem muito mais a ver com o que podemos ser do que aquilo que fomos. Vejo aqui o melhor do nosso país. Não chega, claro. "O melhor do nosso país" tem de aparecer além da avenida: no emprego, na família, na escola, no bairro. Vai levar anos.

É verdade que não temos um sonho grandioso e romântico, como o fim de uma ditadura e a conquista da liberdade. Talvez a luta dos portugueses seja uma espécie de upgrade da primeira versão da democracia, modelo 1974, agora com menos bugs e novos programadores. É um sonho menos estilizado, mas é um sonho.

08. O cartaz dizia: "Quero ser feliz." Há melhor razão para nos manifestarmos?


Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close