Camiões parados. Ministro diz que decisão põe em causa a economia
por Rosa Ramos, Publicado em 14 de Março de 2011
Principais transportadoras dizem que não vão arriscar pôr carros na estrada durante a paralisação
Vieira da Silva, ministro da Economia, diz que a decisão das empresas transportadoras - que agendaram uma paralisação a partir das 00h de hoje e por tempo indeterminado - é "precipitada", pode "pôr em causa o funcionamento" da economia e "não é a melhor forma de ultrapassar o problema".
Mas, nos últimos dias, as principais empresas do sector e as dependentes do mesmo, precaveram-se e adiantaram serviços para atender à procura dos clientes. A Autoeuropa, por exemplo, pediu para ontem a entrega das encomendas de hoje. A Jerónimo Martins antecipou-se ainda mais e as entregas de hoje foram cumpridas na passada sexta-feira. Várias fábricas trabalharam ao domingo para pôr mercadorias em Espanha antes da paralisação, anunciada no sábado.
Ontem à tarde, a generalidade das transportadoras optou por mandar para a fronteira as viaturas internacionais. "Se no protesto de 2008 houve um efeito- -surpresa, desta vez há preparação", diz Jorge Lemos, da Transportes Lemos, acrescentando que nos últimos dias tem sentido "uma pressão enorme por parte dos clientes".
Já a Torrestir teve 200 viaturas na estrada, quando num domingo normal seriam "entre 20 e 30", adiantou Fernando Torres - que mandou despachar, ontem, "todo o serviço internacional". A partir da meia-noite, prefere não arriscar. "Não ponho em risco os motoristas, os camiões e o material. Em 2008 partiram--me várias viaturas e desta vez a adesão poderá ser maior", justifica, acrescentando que, hoje, só circulam os carros de medicamentos, "pouco mais de 100".
Alfredo Maia, da Transmaia, cuja frota opera sobretudo no estrangeiro, passou a tarde de ontem a mandar os motoristas arrancar mais cedo, "mesmo os que não conseguiram descansar as 45 horas previstas na lei", admitiu. "Vamos ver como será a actuação das polícias em Espanha e em França, onde as multas pelo não cumprimento do tempo de descanso podem chegar a três mil euros", diz. Quanto à Transportes Simões, uma das maiores empresas do sector, repete a decisão de 2008: não ter viaturas na estrada "se adesão for grande", apesar de acrescentar que não pararia "voluntariamente".
Associações demarcam-se Desde que a mobilização foi anunciada, as associações do sector demarcaram-se do protesto que, garantem, foi decidido e organizado pelas transportadoras. A Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações acusou as empresas de mercadorias de estarem a "usar os trabalhadores para as suas lutas, que não são as mesmas das dos funcionários" e mostrou reservas sobre a legalidade do protesto. "A Constituição não permite que os patrões usem a greve. Caso o façam, é lockout [quando patrões impedem colaboradores de trabalhar], é inconstitucional", disse Vítor Pereira, da associação.
O protesto foi decidido numa reunião que, segundo apurou o i, juntou cerca de 600 profissionais do sector. No final, a oficialização do protesto foi anunciada pela Associação de Transportadores de Terras, Inertes, Madeiras e Afins (ATTIMA). Pedro Morais, líder da associação, explicou que a manifestação durará "por tempo indeterminado", mas acrescentou que associações "não organizam paralisações" e que a organização está a cargo das transpor- tadoras. O protesto, admitiu ao i, "poderá mesmo dificultar as negociações com o governo".
Em causa, para os camionistas, estão o preço do gasóleo, a legislação laboral e a introdução de portagens. "Só queremos igualdade com Espanha, não queremos subsídios", diz Pedro Morais.
Fonte ligada a outra associação do sector previa ontem que o protesto seja "massificado", porque do memorando assinado com o governo em 2008, "praticamente nada foi cumprido" e há "uma grande revolta e desespero". Só no ano passado, fecharam cerca de 1500 transportadoras em Portugal, dizem. A GNR e a PSP garantem que vão estar atentas ao protesto. Já o ministro da Economia admitia ontem que as empresas do sector estão a passar grandes dificuldades, mas assegurava que do lado do governo tem havido "abertura para encontrar as melhores soluções". Uma postura que, como o i já noticiou, as associações não têm sentido.
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