Primeiro plano

De 1956 a 2011: um paralelo assustador

por Jaime Nogueira Pinto, Publicado em 14 de Março de 2011   
Se a comunidade internacional deixar Kadhafi massacrar os rebeldes, pode limpar as mãos à parede e passar-se um atestado de incompetência e impotência absolutas
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Foi há muitos anos, no Outono de 1956, em 23 de Outubro. Fartos do regime comunista fantoche de Erno Gero, do secretário-geral do governante Partido dos Trabalhadores, da brutalidade da polícia política, a AHV, e de serem governados pela URSS por interpostos camaradas, milhares de húngaros reuniram-se junto à estátua de Joseph Zacharias - um herói das revoluções nacionalistas de 1848 da Hungria e da Polónia.

Seguiram-se os rituais libertários: cantos patrióticos, discursos inflamados, o hino nacional, a proclamação dos direitos, o arrancar dos símbolos comunistas, o assédio e ataque da polícia política.

Os soviéticos mandaram avançar os blindados para guardar os edifícios públicos, mas abstiveram-se de intervir em força. Em 1948, Gero e o primeiro-ministro comunista, Andreas Hegedus, tinham fugido para Moscovo, e um marxista "nacionalista", Imre Nagy, era o novo chefe do governo. Para secretário do partido ia Janos Kadar.

A princípio, Moscovo e o secretário- -geral Kruschev, ainda na frescura do degelo denunciador do estalinismo como doença senil do comunismo, pareceram resignados à ideia da dissidência húngara, que quebrava as sagradas fronteiras de Yalta. As tropas russas retiraram e os patriotas húngaros, durante uma semana, até ao fim de Outubro, pareciam ter vencido e ser senhores do terreno.

Nos Estados Unidos, mandava a dupla republicana Eisenhower/Nixon; no Médio Oriente, ingleses e franceses tinham acabado de atacar Port Said num intento de derrubar Nasser e retomar o canal do Suez. E os israelitas avançavam no Sinai, onde se distinguia um general de pala negra, Moshe Dayan.

Os norte-americanos, desde o início da Guerra Fria, passavam o tempo a animar a resistência na Europa de Leste, a incitar, via Rádio Europa Livre, os povos submetidos ao comunismo a revoltarem-se. O mesmo fizeram, desde o início da revolta, reportando diariamente os acontecimentos e garantindo aos húngaros que o mundo estava com eles.

Entretanto, passado o primeiro impacto, Kruschev conferenciou com os outros dirigentes comunistas do Pacto de Varsóvia. Os chineses de Mao Tsé-Tung, pressionaram Moscovo a intervir e os "partidos irmãos" do Leste perceberam que podia ser o fim de todos eles. O grande irmão soviético não podia deixar escapar uma ovelha tresmalhada do redil socialista. Eram, antes do nome, os dominós de Kissinger. A quatro de Novembro as tropas soviéticas regressaram em força e, após alguns dias de luta desigual, a rebelião foi esmagada. Mais de 50 mil húngaros foram presos, muitos julgados e executados ou deportados para a URSS, outros mortos sumariamente pelos russos ou pela secreta. Duzentos mil conseguiram fugir para o ocidente.

No meio disto, a reacção ocidental andou pelas moções condenatórias da ONU, que os soviéticos vetaram no Conselho de Segurança, encolhendo os ombros à condenação geral, mediática e diplomática. Perante as declarações patéticas da senhora Ashton, os vaivém da NATO à procura de consensos gerais, as declarações dos responsáveis americanos, as votações de sanções e de solidariedade, tudo isto parece uma repetição geral desse episódio negro dos anos 50.

Só que a União Soviética era a União Soviética e apesar de tudo o mundo era outro. Se tudo na Líbia ficar na mesma e deixarem o coronel massacrar os rebeldes, pode agora, como no Ruanda, a comunidade internacional e as milhentas entidades globalizadoras e humanitárias que a compõem limpar as mãos à parede e passar-se um atestado de incompetência e impotência absolutas. Prof. universitário, escreve à segunda-feira

P.S. Sou informaticamente um Cro-Magnon, mas descobri que alguém, fazendo passar-se por mim, inaugurou a "minha" página no Facebook. Para o que der e vier, fica dito que não tenho nada que ver com o assunto.


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