Esquecidos nas camas dos hospitais
por Rute Araújo , Publicado em 30 de Junho de 2009
Estão presos a uma cama, demasiado doentes para terem a esperança de uma vida normal. Histórias de quem mora dentro de um hospital
No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, cruzam-se os percursos desencontrados de Mariana, Abyude, Jorge e Luísa - doentes crónicos obrigados a viver entre médicos e enfermeiros. Estão demasiado doentes para conseguirem ter uma vida normal, demasiado presos aos tratamentos para ter uma vida fora do Hospital. Instituições de solidariedade, embaixadas, asilos - ninguém está preparado para os receber. Por todo o país, existem outros como eles.
Mariana (nome fictício) nasceu com complicações pulmonares. Logo nos primeiros minutos de vida foi submetida a uma traqueotomia urgente. Tem sete anos. Nunca saiu do hospital. Dorme no serviço de pediatria, onde o tecto está decorado com embalagens de soro pintadas a guache e os funcionários vestem batas com desenhos coloridos. Teve alta uns meses depois de nascer, "mas a família não tinha condições económicas e emocionais para cuidar dela", conta a assistente social do serviço, Laurinda Almeida. Em 2005, uma decisão do tribunal colocou-a provisoriamente ao abrigo da unidade de saúde por falta de opções. "Corremos tudo e ninguém aceitou a Mariana. Não há instituições que aceitem estas crianças, mesmo na Rede Nacional de Cuidados Continuados", explica.
Mariana tem um atraso de desenvolvimento. Chama pelo nome das enfermeiras, diz olá e nada mais. A assistente social conta que o problema resulta da sua patologia e de viver numa unidade de saúde: "Ela é a filha desta grande família que é o hospital, mas nunca poderá ser uma criança normal. Precisa de cuidados que só os pais podem dar."
No mês passado, um casal mostrou-se disponível para a adoptar. Não é a única mudança: uma instituição de solidariedade social vai levar Mariana a ver o mar. Será a primeira vez que sai à rua em sete anos de vida.
Abyude Vivia em São Tomé e Príncipe com a mãe, divorciada do seu pai. Em 2005, um irmão adoeceu. Ao abrigo de um protocolo entre os dois países, a sua vida podia ser salva em Portugal. A mãe partiu. Aos dez anos, Abyude ficou sozinho durante algumas semanas, até o pai, Arnaldo Encarnação, o levar para sua casa. Viveu como um convidado que chega no momento errado e esforçou-se por ser invisível. Um dia foi atacado por dores violentas.
Na tarde de 24 de Abril de 2006, pai e filho aterraram no Aeroporto da Portela "para um tratamento que duraria algumas semanas". Nunca regressaram. Quando Arnaldo descobriu que não podia voltar foi como se as luzes se apagassem. Cegou. No escuro, só via o rosto do filho. "A culpa é toda tua. Porque ficaste doente? Estragaste-me a vida", gritou ao miúdo de olhos rasgados e tristes. Hoje arrepende-se: "Disse coisas que um pai nunca deveria dizer a um filho."
Três anos e meio depois, Abyude está deitado num sofá, com o braço estendido a receber o sangue filtrado de uma máquina. Explicaram-lhe que tem de fazer hemodiálise às segundas, quartas e sextas. Nesses dias, acorda às sete da manhã, veste-se e espera pela ambulância. Regressa a casa às três da tarde e vai dormir. "Os tratamentos deixam-me muito cansado, mas às vezes pego nos livros."
Abyude ignora a Playstation, o leitor de DVD e os jogos de tabuleiro que estão à sua frente. Faz exercícios com a professora. Aos 14 anos, ainda está na quarta classe. "A escola é boa, mas difícil." Só vai às aulas dois dias por semana.
Pai e filho vivem numa casa que custa 275 euros; a Embaixada de São Tomé contribui com 175. A comida é assegurada por instituições de solidariedade. Arnaldo está sentado num sofá de cabedal roto. Sapato engraxado, calças engomadas, camisa limpa mas com nódoas que não desaparecem. Como outras que não se vêem: "Eu e o Abyude passamos o tempo a pensar na nossa terra, mas sabemos que não podemos voltar."
Jorge (nome fictício) foi camionista internacional. "Fui e sou", corrige num rasgo o homem largo de blusa de alças. "Camionagem internacional está fora de questão, mas ainda posso fazer nacional", conta. Jorge não reconhece a sua nova condição. Insiste num devaneio sobre a sua antiga vida: "Andava sempre fora, vinha uma ou duas vezes por semana a casa." Embora ainda não o aceite, é VIH positivo. A aleatoriedade com que teve relações sexuais desprotegidas é responsável pela certeza que marca o resto da sua vida. Tem de fazer diálise três vezes por semana.
Em poucos minutos, Jorge passou da negação à autocomiseração: "Era um homem diferente. Isto é um terramoto que desaba pela cabeça de uma pessoa abaixo. Não tenho dinheiro para comer." Recebe 400 euros do Estado pela baixa médica, paga 350 euros de casa e a mulher está desempregada. "Se agora recebo 400 euros, quanto é que hei-de receber de reforma?" A opção não entra nas suas equações. De repente, Jorge é atingido por um choque de pragmatismo. "Isto é só um tratamento, não estou inválido." O seu olhar faísca. "Pedi para fazer os tratamentos às seis da tarde para poder trabalhar. O médico disse que não havia esse turno, mas que ia falar com a direcção do hospital."
Luísa era como uma primeira-dama em Angola. Casada com um antigo administrador de concelho, a sua vida era um luxo. A filha, Maria Agostinho, recorda como a mãe partia ligeira para as passagens de ano no Ultramar. "Não perdia uma. Adorava dançar", recorda. Depois veio Abril. O princípio do fim.
Luísa viveu na África do Sul e, antes do final da década de 70, regressou a Portugal. Restavam-lhe só as memórias dos tempos de Angola, porém nunca precisou de trabalhar. "A 6 de Agosto de 2004 entrou como um cadáver no Hospital Pulido Valente. Olhos vidrados, muito branca. Pensei: 'Ó mãe, não morras!'", conta a filha. Luísa tinha 79 anos e uma insuficiência pulmonar. Esteve vários dias em coma. Hoje tem de ser ventilada mecanicamente. "Para os beneficiários da ADSE, o oxigénio só é comparticipado a 20%. Esse valor implica uma despesa mensal superior à sua reforma", explica Sónia Almeida, assistente social do serviço de pneumologia. A filha também não consegue suportar o encargo: "Dependo da minha mãe, sobrevivo com a reforma dela."
Luísa continua vaidosa e esperta. Acabou de ler "As Intermitências da Morte", de José Saramago. Pinta as unhas, põe creme no rosto e perfuma-se todos os dias. Foi arrastada para o serviço de pneumologia há cinco anos, mas não abdicou da dignidade. Ainda se lembra do que é a vida fora de um hospital. "Ela preferia a morte, eu é que não quero perder a minha mãe. Se ela se for, passo fome", confessa a filha.
Luísa faz um esforço para falar, mas a voz extingue-se na garganta. Depois o olhar fixa-se nas molduras da mesa-de-cabeceira. Na imagem desmaiada de um banquete onde um galã de smoking se senta ao lado de uma mulher linda com um vestido de renda negro. Só então o nó que a impedia de falar se solta. Do fundo da alma, dispara: "Estou farta."
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