Jel: "É muito simbólico sermos nós a ir à Alemanha nesta altura"

por Liliana Valente, Publicado em 07 de Março de 2011   
Veja também o artigo "Homens da Luta. Mais um fenómeno anti-tudo sempre "contra a reacção'" nos artigos relacionados
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Na ressaca da vitória, Jel, Nuno Duarte ou ainda o Neto dos Homens da Luta falou com o i. Promete ir mostrar à Alemanha quem manda, protestar na rua. Jel diz que não é o José Manuel Coelho do Festival da Canção e quer "despertar consciências". Não excluímos os "pá" e os "sabes?" do texto da entrevista porque são típicos dos Homens da Luta e tratámos o Jel por tu porque não gosta de formalismos.

Têm aparecido várias vozes do anti-sistema. Há um tempo disseste ao i que "é nestas alturas de abstenção, quando o povo está descrente, que surgem os malucos a gritar". É isso que vocês são?

Nós somos malucos a cantar e a gritar mas não aspiramos ao poder. É o que nos distingue de outros que possam aparecer a gritar. É com esses que as pessoas têm de ter cuidado e os Homens da Luta também servem para avisar sobre isso. Isto é um número artístico, mas que serve tanto para animar a malta, como dizia o Zeca Afonso, como para avisar que a demagogia é perigosa.

O povo está descrente?

Está descrente em muita coisa, mas acho que estamos a assistir a um momento de mudança, sobretudo na geração mais nova.

Que tipo de mudança?

Há uma geração que quer ascender - e quer fazê-lo pelo mérito -, quer viver melhor, ter mais oportunidades, melhores empregos e melhores salários. E essas pessoas, pá, estão a aperceber-se que têm de fazer a luta. Têm de protestar. Se não gritarem, as coisas não vão acontecer. O povo só avançou e só conseguiu direitos quando veio para a rua.

Vocês identificam-se com a música dos Deolinda? Pode comparar-se a acção das duas músicas?

A música é diferente. A deles é mais fadista, olha o problema de um outro prisma, mas serve para o mesmo fim: para despertar consciências. Era bom que houvesse mais artistas a falar dos problemas das pessoas. Nos últimos anos, a música foi muito de entretenimento: os artistas a falarem do seu umbigo, o amor e "I love you" e não sei quê. Há outros temas, sabes? E os artistas têm de estar conectados com o povo, com o que as pessoas sentem. O que se está a notar nos Deolinda, nos Homens da Luta, mas também nos Peste & Sida e nos Xutos, é que há espaço e se calhar é um dever falar nisso.

A vossa música é de intervenção?

Tudo é política na vida. A nossa definição de música de intervenção é sobretudo música alegre, não vamos para o lado triste da coisa. Sem preconceitos, falar das coisas como elas são, sem polir para não se ser politicamente correcto. Apenas falar.

É para levar a sério?

Pá, é para levar da maneira que as pessoas quiserem levar. A mensagem é muito clara: a luta é alegria e eu acho que foi isso que fez com que as pessoas se identificassem com ela.

Qual é o vosso objectivo?

É mostrar que a luta pode ser alegre e que a alegria é revolucionária. É mostrar que eles podem subir as taxas de juro e cortar nos orçamentos e dar puxões de orelhas e fazer com que paguemos mais impostos, mas não tiram ao povo a alegria. Essa é a mensagem que vamos lá levar.

Vão à Alemanha mostrar quem manda?

Sim, e acho que é muito simbólico sermos nós a ir à Alemanha nesta altura do campeonato. É irónico, engraçado.

Estás a referir-te ao encontro de Sócrates com a chanceler?

É isso mesmo, pá. Vês como chegaste lá? A mensagem que está na letra da canção é essa: isto é muito giro, o festival e tal, mas pá o protesto é na rua que se faz. Vão protestar nas ruas da Alemanha?

Vamos cantar. As pessoas às vezes gostam de ver coisas onde não as há. Nós fomos apenas com uma canção. Lá fomos nós cantá-la, e, olha, as pessoas gostaram e ganhámos. É a democracia.

Porque é que decidiram concorrer?

Ficámos com um amargo de boca desde o ano passado, em que não nos deixaram. Queríamos mesmo participar, sabes? Agora ganhamos e, ó pá, vamos tentar trazer uma boa classificação, a vitória. A luta é universal.

Querem ser os portugueses mais votados de sempre?

Quem sabe? A luta está na moda na Europa toda, no mundo todo.

Foram apupados no final da cerimónia. O que têm a dizer a essas pessoas?

Já estamos habituados. Já fomos presos, já fomos agredidos, processados. Não é o assobio que nos cala. Aos que não gostam, olha, as melhoras para eles.

Vocês sentem-se como o José Manuel Coelho do festival?

Não, porque ele não ganhou e nós ganhámos. Sentimo-nos como o Ary dos Santos do festival. Provou uma coisa nestes últimos tempos: a democracia causa um bocado de embaraço aos poderes instituídos.

Qual é o objectivo?

O objectivo é trabalhar, dar concertos, que nós vivemos disto. O preço que fazemos é barato, mas nós também queremos ganhar melhor. Queremos cumprir os nossos sonhos. Estamos fartos que nos digam "ah e não sei quê os mercados". Precisamos de ir para a frente porque senão somos um país de ressabiados.

 

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