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Botas novas para a alma

por Edson Athayde, Publicado em 05 de Março de 2011   
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Ir longe de mais. A coisa pode significar perder o ponto, exagerar, chegar aonde não se era suposto ir. Num mundo onde o médio é incrível, o certo é banal, não fazer ondas é desatino, ir longe de mais é, via de regra, algo desaconselhável. Eu gosto de ir longe de mais.

Tenho dificuldades de explicar o que vim fazer ao círculo polar árctico. Não, não era um sonho de criança, nem uma necessidade esotérica de estar no topo do mundo e mais perto de Deus. Sinto- -me mais perto de Deus.

Tudo em Tromso, cidade muito ao norte de tudo, nos confins mais altos da Noruega, lembra que o homem não deveria estar aqui. Mas está. Desde o fim da era do gelo, dizem. E, agora, estou eu também.

"Se vai longe, não esqueça da importância das suas botas", diz o velho marinheiro, capitão do barco que nos leva noite adentro em busca da aurora boreal. Conta-nos, o velho, que quando ainda era caçador de ursos-polares teve um companheiro que saiu sozinho para sua lida e que não regressou. Na busca, dele nada encontraram além dos dois pés intactos dentro das suas botas. Um urso teria dado conta do resto, mas como não sabia desatar os cadarços, desistiu de devorar totalmente a sua presa. Moral da história: o que falta ao mundo são botas para a alma.

Fico a pensar se trouxe as minhas. Ou se, por acaso, as tenho. Não me foi artigo oferecido na secção de neve da Sport Zone. Trouxe meias, trouxe gorros, até um inesperado cachecol, mas botas para alma, não. Fico até meio assustado com o facto de já ter zanzado tanto pelo planeta sem usar calçado de tal relevância. Quantos tombos metafóricos não terei levado, que teriam sido perfeitamente evitados se eu estivesse mais bem protegido.

O certo é que sobrevivi às quedas (com arranhões aqui e ali, é verdade, quem é que não tem nódoas na alma?) e cá estou a olhar para o infinito, numa noite que mais parece um dia, devido a uma lua (quase obesa de tão redonda e cheia) reflectindo no gelo.

Como amores perfeitos, a aurora boreal só aparece quando ela quer, não quando você deseja. Já o barco está a fazer o seu trajecto de regresso, nos trazendo de olhos vazios, quando o velho nos chama de volta à proa. O vento glacial é forte, a nave balança, alguns vão ligeiros, sedentos por presenciar a aurora. Eu vou devagar, não quero cair no mar e me afogar, morrendo sem ver o que há-de ser visto, depois de ter ido tão longe, longe até de mais. Passo a passo, concluo: queria correr pela vida mais vezes sem medo. Se calhar, preciso de comprar botas novas.

 

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