Revolução popular
Líbia. Tropas leais a Muammar Khadafi tentam retomar arredores de Trípoli
por Joana Viana, Publicado em 02 de Março de 2011
Plano do líder está a falhar, dizem testemunhas na capital. Ocidente está a apoiar terroristas devido ao petróleo, garante filho de Khadafi
As forças leais a Muammar Khadafi continuavam ontem a tentar retomar as cidades próximas da capital líbia, Trípoli, mas segundo declarações de testemunhas à AFP, em Zawiya, o bastião rebelde mais próximo do último reduto do presidente, a estratégia está a falhar. Um dia depois de Khadafi ter reagido com gargalhadas pouco discretas quando questionado pela ABC se vai abandonar o país, os seus apoiantes, munidos de tanques e armamento pesado, procuraram retomar o controlo de Zawiya, mas ao fim de seis horas de luta foram obrigados a recuar pelos rebeldes.
Apesar da crescente pressão ocidental, e perante o falhanço de ontem, o coronel Khadafi já deu ordens para reforçar a presença militar no Oeste do país, depois de ter renovado a sua garantia de que os rebeldes opositores foram "drogados pela Al-Qaeda". Saif al-Islam Khadafi voltou a sair em apoio ao regime do pai, dando a cara numa entrevista à SkyNews, onde garantiu que o coronel não ordenou qualquer bombardeamento de manifestantes. "Mostrem-me uma prova que seja disso", afirmou. "Estamos prontos para qualquer missão de apuramento dos factos por qualquer país do mundo. Agora temos centenas de jornalistas [na Líbia] que podem ir onde quiserem, encontrar-se com quem quiserem." Da mesma entrevista, saiu outra garantia: a de que o governo do seu pai não perdeu o controlo do Leste do país.
Ocidente oportunista Ontem, os EUA falaram numa cada vez mais certa guerra civil no país, caso a família Khadafi não abandone o país. "Nos anos vindouros, a Líbia pode vir a tornar-se numa democracia pacífica ou pode enfrentar uma guerra civil prolongada", disse a secretária de Estado, Hillary Clinton, no Comité de Negócios Estrangeiros do senado norte-americano. Antes disso, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, avançou a ideia de que o Reino Unido e os seus aliados devem ter como prioridade "o isolamento e a pressão" sobre o regime de Khadafi, enquanto preparam um plano que contemple qualquer eventualidade. "Como já disse, devíamos estar a fazer planos para vermos o que podemos fazer para parar isto", disse aos jornalistas em resposta a questões sobre as futuras acções da comunidade internacional contra Khadafi.
Saif não gostou das palavras de Cameron, aproveitando a entrevista à televisão britânica para falar de um político que está a tentar "ser um herói", usando a onda "terrorista" lançada na Líbia. "[O Reino Unido] tem de parar de pensar com ganância em petróleo", disse. "Nós não estamos a prestar atenção à piada" que foram as declarações de Cameron sobre a crise no país, acrescentou.
Exclusão aérea Também do Reino Unido surgiu ontem outra garantia, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, William Hague. Perante a possibilidade de criar uma zona de exclusão aérea nos céus da Líbia para impedir que Khadafi recorra a aviões e helicópteros para reprimir os manifestantes - levada a discussão a 24 de Fevereiro na ONU -, Hague veio ontem sublinhar que essa possibilidade é viável mesmo que não conte com o apoio da organização. "Houve ocasiões no passado em que uma zona de exclusão aérea teve uma justificação legal, clara e internacional, mesmo sem uma resolução do Conselho de Segurança", disse à BBC. "Depende da situação no terreno" mas "precisaremos de um grande nível de apoio internacional", admitiu o chefe da diplomacia britânica.
Khadafi, contudo, parece imune às ameaças ocidentais, mesmo depois de a Rússia se ter juntado aos vários países que defendem a saída imediata do líder. Em Moscovo, fonte do Kremlin disse ontem que o governo russo classifica o coronel como "um cadáver político vivo, que não tem lugar no mundo civilizado moderno", defendendo que o presidente deve renunciar ao cargo.
Perante isto, o povo continua com medo. "Tenho 35 anos e é a primeira vez que vejo algo assim. A minha família está com medo, ouvimos tiroteios constantes", disse ontem Salah, médico em Trípoli. "É assustador."
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