"Três, dois, um, acção!" Ao sinal do realizador Patrício Faísca, o assistente André Ferreira puxa um cordel de ráfia com cuidado. Atrás vem um dolly, um carrinho que permite a gravação de planos suaves em movimento, feito de aglomerado de madeira. Os rolamentos deslizam sobre dois tubos de electricidade em PVC - os carris -, enquanto a pequena câmara de filmar HD (alta definição) aponta para a protagonista do filme, a cantora de um bar. "Corta!", ordena Patrício segundos depois. "Vamos repetir."
Já passa da meia-noite em Loulé. As gravações começaram às 22h00 e ameaçam prolongar-se noite dentro. A média-metragem "Obsessão" é a nova aposta da New Light Pictures, a produtora deste miúdo franzino de 22 anos, conhecido nas redondezas como o Spielberg de Almancil. Nos últimos nove anos, realizou 19 filmes em regime low cost. O mais recente, "Vila Gondra", com um orçamento de ?65, causou sensação no aniversário da SIC Radical, em Abril. Logo a seguir, Patrício arrancou com este projecto sobre a obsessão de um homem por uma cantora - uma ideia de um dos actores de "Vila Gondra", o professor de Educação Física Pedro Fernandes. A produção é a mais cara até ao momento. Só na preparação do cenário, realizador e argumentista já gastaram aquilo que consideram uma pequena fortuna: ?200.
"Quando li o guião, imaginei logo alguns travellings", conta Patrício. Em dois ou três fins- -de-semana construiu não só o dolly e os carris, mas também duas gruas - ainda que a mais pequena não esteja 100% aprovada, alerta. "O meu pai é mecânico, o meu tio é electricista e o meu avô é o homem das 1001 profissões - sempre tive muitos meios técnicos disponíveis", justifica. O manual de instruções chama-se Google. É só perguntar que ele responde.
Este empregado de balcão numa loja de telecomunicações, que não passou do 9º ano nem tem formação em cinema, é incapaz de explicar o que o leva a passar meses a fio embrenhado na produção de filmes com pouca ou nenhuma visibilidade. Por outro lado, discorre sobre o seu surpreendente percurso com a desenvoltura de um profissional. O começo, como não podia deixar de ser, foi precoce.
Aos seis anos começou a ver making ofs na RTP2. Fascinavam-no os efeitos especiais. Dois anos depois, os vizinhos fizeram um filme de terror e ele ficou vidrado na brincadeira. Tinha 10 anos quando pediu a câmara emprestada ao pai para alinhar a primeira sequência de imagens - interpretada por legos. Meses depois, com "Titanic", emergia a paixão pelo cinema.
"Achei aquilo fabuloso. Passei a querer filmar com pessoas", conta. Consumiu esse Verão a construir uma maquete de oito metros - um Titanic forrado a papelão. Até abriu um buraco com pás, enxadas e a ajuda de um vizinho para filmar o navio a afundar. "Estava cego por aquilo", lembra. Só não contava com as chuvas de Setembro, que lhe deitaram o modelo por água abaixo.
Em 2000, gravou a primeira longa-metragem, "A Mata", uma cópia de "O Projecto de Blair Witch". Convenceu o pai a comprar-lhe um programa de edição e montou o filme no computador. Depois passou a mostrar o trailer aos colegas nos trabalhos de grupo. "Tornou- -se mais fácil arranjar pessoas para os filmes", explica. Passados seis meses, apareceu o programa "Curtas" na SIC Radical e Patrício tornou-se participante habitual com a saga do agente "K17", baseada nos filmes de James Bond.
Construía armas de pau, encenava explosões, perseguições e cenas de pancadaria. "Optava por filmes de acção porque os actores não eram muito bons", avança. "Depois a montagem e a música davam ritmo ao filme", acrescenta o amigo Sonat Duyar, também de 22 anos, co-realizador e argumentista de "Vila Gondra".
Os dois conheceram-se há sete anos. Patrício rodava "Broken Lines" e precisava de figurantes. "Eu lá fui", lembra Sonat, que trabalha na piscina do Hotel Quinta do Lago. "Fiquei impressionadíssimo. Era um cenário no meio do mato. A sequência envolvia uma mina de urânio e eles até trabalho escravo tinham." O realizador sorri com o elogio. É um perfeccionista. No filme "Resistência Rebelde", chegou a coordenar cenas de acção com 20 pessoas. "Ele é calado, mas quando fala, todos ouvem", reforça André Ferreira, 21 anos, caixa num supermercado e especialista em quedas e mortais ("acho que nasci com esse dom", diz).
O padrão mantém-se na rodagem de "Obsessão". "Jay Jay, só dá poker aí?", pergunta Patrício, alto e bom som, para o outro lado da sala, onde um dos assistentes se distraiu com um enredo paralelo - uma animada partida de poker. "?Bora lá, malta", prossegue o líder. Ainda não parou desde o início da noite. Nem mesmo quando o mesmo Jay Jay trouxe águas e minis (um gasto não contabilizado) para refrescar a extensa equipa de 13 pessoas, incluindo cinco figurantes, quase todos alunos de Educação Física.
No set não há anotadoras nem secretárias de realização. Nem sequer uma claquete. Um rapaz subido num escadote segura um foco. Podia ser uma brincadeira de crianças, não fosse a atitude - seríssima. Patrício revela que quer criar uma empresa. Não ganhou nada pelas quatro exibições de "Vila Gondra" na SIC Radical, mas sonha viver dos filmes. "Como produtor ou editor de imagem", adianta. "Acho que tenho mais jeito do que para a realização."
Já passa das duas da manhã quando o realizador decreta a primeira pausa. "Intervalo? Espectáculo!", reage, sarcástico, o actor principal, Bruno Coelho. Passou as últimas quatro horas a tentar olhar de forma obsessiva para a estudante de 16 anos, Adriana Gonçalves, a cantora. Já só Sonat e André colaboram; todos os outros gravitam em torno da mesa de poker. "Ya", responde Patrício, imperturbável. "Já acabámos as cenas de hoje. A seguir. vamos aproveitar para filmar uma sequência extra."
O filme de ?65 que conquistou a SIC Radical
Cinco jovens perdem-se à niote na floresta até que encontram uma habitação isolada. Entram, mas, uma a um, vão desaparecendo. A casa está assombrada. Escrito numa noite e concluído em três meses, o filme de terror "Vila Gondra" foi um dos grandes destaques da programação especial do 8º aniversário da SIC Radical, há dois meses. Patrício Faísca realizou , Sonat Duyar co-realizou, escreveu o argumento, a banda sonora e inventou duas receitas de sangue, uma comestível (água, corante vermelho, mel e gelatina), outra tóxica, mas mais fácil de produzir (detergente de louça Super Pop e corante vermelho). O maior desafio, dizem, foi a iluminação. Nunca tinham gravado à noite e tiveram de investir em filtros de luz (?45). Custos globais de produção: ?65.




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