Conflito na Líbia
Petróleo. Combustíveis podem subir até 2,5 cêntimos por litro
por Ana Suspiro, Publicado em 26 de Fevereiro de 2011
A gasolina deverá aumentar mais. Política fiscal fez subir tanto o gasóleo como o petróleo
O preço dos combustíveis pode subir até 2,5 cêntimos por litro na sequência da escalada do petróleo que se verificou esta semana, provocada pela violência na Líbia. Estas contas têm por base a variação média das cotações dos produtos refinados - medidas pelos índices Platts - contabilizada até quinta-feira, face aos preços médios internacionais da gasolina e do gasóleo da semana anterior. Sexta-feira, o Brent de Londres chegou aos 114 dólares por barril, apesar do reforço da oferta por parte da Arábia Saudita, tendo fechado acima dos 112 dólares.
A gasolina é o combustível que mais deve subir na próxima semana, até 2,6 cêntimos por litro, incluindo já o efeito do IVA, que amplia o agravamento do custo antes de impostos à porta da refinaria. No gasóleo, a variação das cotações internacionais dá um aumento da ordem de 1,5 cêntimos por litro, segundo contas feitas por fontes da indústria petrolífera. Porém, os aumentos poderão ser maiores se o petróleo se mantiver acima dos 110 dólares por barril.
O impacto destas variações no preço final vai depender da política comercial das petrolíferas, que podem diluir estas subidas. Os combustíveis já começaram a subir esta semana, 1 cêntimo na gasolina e 0,8 cêntimos por litro no gasóleo, segundo os dados da Direcção-Geral de Energia para quinta-feira.
Nos mercados internacionais, a cotação média da gasolina valorizou 4,2% e a do gasóleo cresceu 2%. Já o petróleo em euros teve uma variação de 4,6% face à média da semana anterior, abaixo do agravamento registado de 5,6% quando medimos as cotações em dólares. Quando comparamos o período de sexta a sexta, o salto foi de 9,5%, o maior ganho semanal em dois anos. O euro até deu uma ajuda ao ganhar terreno face ao dólar, amortecendo o impacto do agravamento do crude em países como Portugal. Desde o início do ano, o petróleo ganhou 17,4% em dólares, enquanto em euros o acréscimo de preço se ficou pelos 14,2%.
Como se não bastasse o aumento do petróleo, os preços finais dos combustíveis em Portugal foram ainda mais castigados pela política fiscal adoptada pelo governo a partir do início do ano, em nome da consolidação orçamental.
Foram duas as medidas que ampliaram o agravamento dos preços: a subida do IVA para 23% e o fim dos incentivos fiscais ao biodiesel. Esta iniciativa em particular teve um efeito muito gravoso no preço do gasóleo.
Nas contas da APETRO (Associação Portuguesa das Empresas Petrolíferas), o fim da subsidiação fiscal à introdução de gasóleo produzido a partir de óleos alimentares teve um impacto de 5,4 cêntimos por litro no preço final, que corresponde à diferença entre o preço máximo de referência fixado para o biodiesel e o preço do gasóleo normal. Esta diferença multiplicada pelo consumo anual de gasóleo e para uma meta de 7% de incorporação de biodiesel dá uma factura extra de 300 milhões de euros por ano, que passou a ser totalmente paga pelos consumidores nacionais. Considerando o reflexo do agravamento do IVA, concluímos que a política fiscal foi responsável por cerca de metade do aumento de 12 cêntimos verificado no gasóleo este ano.
Portugal mais vulnerável O diesel é o combustível mais usado em Portugal - representa dois terços do consumo -, além de ser utilizado pelos transportes públicos de passageiros e de mercadorias, o que estende as repercussões dos aumentos a toda a economia.
Os transportes são o primeiro sector a sofrer, mas o contágio à economia é inevitável, sobretudo em Portugal, que ainda tem das mais elevadas dependências energéticas na Europa. Esse foi o alerta do presidente da Caixa Geral de Depósitos. Faria de Oliveira diz que o aumento do custo do petróleo "é mais um factor negativo que só nos vem penalizar". Os combustíveis são a principal fatia das importações nacionais, justificando por si sós o défice da balança comercial.
Contudo, ontem José Sócrates mostrou--se confiante de que o petróleo não vai afectar a execução orçamental.
Transportes pressionam Ontem ao fim do dia o governo reuniu-se com as associações de transporte de mercadorias (ANTRAM, ANTP e ATTIMA), depois de estas terem exigido medidas urgentes. Da reunião com o secretário de Estado dos Transportes, Correia da Fonseca, saiu a intenção de conceder benefícios fiscais em IRC e no imposto sobre circulação. Sobre a principal exigência do sector, a criação de um gasóleo profissional mais barato, "o Ministério das Finanças, consciente da delicadeza da matéria em causa, está a analisar todas as possíveis soluções". Os descontos nas portagens terão de ser negociados com as concessionárias.
O presidente da ANTROP (operadores privados de transporte público), Cabaço Martins, alertou para uma nova subida das tarifas se o governo não tomar "medidas extraordinárias" (ver texto do lado).
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