Juros insustentáveis. Não há prazo que resista à pressão
Publicado em 23 de Fevereiro de 2011
Mercados nem reagiram à execução orçamental do governo. Obrigações portuguesas, de quatro a dez anos, estão todas acima do pico de Maio
Os juros exigidos pelos mercados para negociar os títulos de dívida portuguesa persistem em níveis insustentáveis, num contágio que começou nas obrigações a dez anos (ontem nos 7,466%) e que se foi alargando para a dívida de maturidade inferior. Ontem foi a vez das obrigações de quatro anos, que quase tocaram nos 6,9%, situando-se já acima dos valores de quando explodiu a crise da dívida, em Maio - a quatro anos eram de 6,18%. Ontem, foram a 6,83%.
Mas antes desta maturidade, já a dívida portuguesa a nove, oito, sete, seis e cinco anos tinha calcorreado o mesmo caminho, estando agora os juros de todas estas maturidades bem acima do registado em Maio - quando explodiu a crise, o máximo das obrigações a nove anos foi de 6,34%, agora está nos 7,4%. Quanto às maturidades mais reduzidas, estão lentamente a seguir o mesmo caminho: os juros a três anos estavam ontem nos 6,36%, contra os 6,5% de Maio. Em Outubro, os mercados exigiam 3,5%.
A pressão continua bem alta e o governo sabe. Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, está aliás de visita ao Japão por estes dias onde, oficialmente, procura "diversificar base de parceiros comerciais e investidores". Às agências internacionais, o ministro referiu que "Portugal está a tentar alcançar as metas orçamentais. A nossa situação é diferente da que se vive na Grécia e na Irlanda e não está tão mal como escreve a comunicação social". Teixeira dos Santos concedeu ainda uma entrevista a um jornal local para sublinhar que não precisa de ajuda - ainda que a economia portuguesa esteja a ser artificialmente sustentada pelo Banco Central Europeu, que já dedicou mais de 60 mil milhões de euros a aguentar Portugal em menos de um ano (grosso modo, um terço do PIB).
Ontem, o BCE fez o favor de voltar a emprestar 119 mil milhões à banca europeia e prometeu novas investidas pelos mercados para conter os juros: na segunda-feira, 24% de todas as transacções no mercado secundário da dívida foram do BCE, que gastou 711 milhões.
Hoje termina a missão de um grupo de técnicos da CE que veio a Portugal verificar as contas e as perspectivas económicas do governo. Filipe Paiva Cardoso
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