Tabaco, nº 10 e Buyo, as obsessões do Futre jogador
Aos 11 anos o pequeno Paulo tinha de apanhar o barco todos os dias para ir do Montijo a Alvalade, onde treinava. Dez anos depois, quando chegou ao Atlético de Madrid, o presidente Gil y Gil ofereceu-lhe um Porsche. É que entretanto Futre já tinha impressionado toda a Europa do futebol com as suas exibições no FC Porto e ia assinar pelo Inter de Milão (Real Madrid e Barcelona também estavam interessados), antes de os colchoneros lhe oferecerem 30 vezes mais do que ganhava e pagarem 650 mil contos aos dragões, na altura a segunda transferência mais cara da história.
"Era uma máquina! Então a criar faltas e penáltis, nessa altura, era mato!", diz ao i Fernando Mendes, que jogou com Futre nos juniores do Sporting e, mais tarde, no Benfica. Mas a carreira do genial extremo sempre foi marcada pela controvérsia e pelos habituais excessos da juventude. Quando chegou a Madrid, em 1987, a primeira coisa que conheceu foi a discoteca Jácara - mas por culpa de Gil y Gil. Mais de 4 mil pessoas gritavam pelo novo reforço e a noite de Futre com a afición durou até de manhã. Já não havia Octávio Machado para controlar as saídas nocturnas do craque. Como se não bastasse, o tabaco era o seu "maior vício". "Quando era jogador tinha um calendário. Fumava 12 na terça, dez na quarta, oito na quinta, seis na sexta, quatro no sábado e um no domingo, depois de almoço, antes do jogo." Uf! E ainda corria aquilo tudo?
Como qualquer estrela de futebol, também tinha as suas excentricidades. Em 1996, quando chega ao West Ham, tinha uma cláusula no contrato a indicar que só jogava com o número 10. Quando chega ao balneário, no primeiro jogo, vê "Futre 16" na camisola. O caldo já estava entornado: "Maradona, Pelé, Eusébio, Futre 10", disse, enfiou a camisola na cabeça do presidente e foi-se embora. O que vale é que os ingleses gostam do Sul de Portugal. John Moncur, que tinha o n.o 10, trocou-o por duas semanas de férias na casa de Futre no Algarve. Em entrevista à "Sábado", confessou que escolheu jogar no Japão em 1998, entre propostas do México e Arábia Saudita, por... dinheiro? "Não. Moeda ao ar."
Antes dos dérbis contra o Real Madrid pendurava uma foto de Paco Buyo, guarda-redes dos merengues, na parede. "Via o Buyo por todos os lados. Quando me ia deitar via-o, quando me levantava via-o. Era Paco, Paco..." Ainda falam de Ronaldo e Messi. Isto sim, eram obsessões.
Gel, gravata e telemóvel: eis o Futre empresário
Durante seis anos encantou Madrid com o seu futebol explosivo. As suas arrancadas, os dribles e os golos garantiram--lhe um lugar na galeria dos imortais do Atlético de Madrid. Talvez por isso Futre tenha regressado à capital espanhola quando terminou a carreira de futebolista, para ser director desportivo dos colchoneros. Cortou o cabelo comprido – uma imagem de marca –, vestiu o fato e a gravata e trocou a bola pelo telemóvel. Chegou em 2000, quando o clube estava na segunda divisão, e retirou-se três anos depois, com o Atlético já no escalão principal, por ter um cargo "muito desgastante".
Mesmo nos dias de hoje, quando vai à rua todos o reconhecem. "Todos os dias me abraçam, assino autógrafos e camisolas. Ainda não vivo em tranquilidade. Em Portugal é muito raro alguém dizer-me alguma coisa na rua", admitiu em 2009 ao i. Nas ruas de Madrid ficou conhecido como "el portugués" e já trocou o famoso Porsche amarelo dos anos 80 por um Maserati. Todos conhecem Futre e Futre conhece toda a gente. Não é de admirar que o seu trabalho desde 2003 seja de consultor nas mais diversas áreas de negócio, onde os seus contactos ajudam as empresas (nomeadamente portuguesas e espanholas) a desbloquearem muitos problemas.
Nunca conseguiu cortar os laços com o mundo do futebol, ou é o mundo do futebol que não o deixa afastar-se. Foi intermediário na polémica transferência de Figo do Barcelona para o Real Madrid, aconselhou Maniche a mudar--se para o Atlético de Madrid em 2006 e colabora regularmente com a Gestifute de Jorge Mendes.
Mora numa vivenda em Madrid com os dois filhos, Paulo, de 21 anos, e Fábio, 20 anos. Omais velho, apesar do nome do pai, não tem jeito para o futebol. Estuda Design, ajuda Futre no trabalho e toca baixo numa banda de rock, os Fr1day, que costumam actuar em bares. Fábio é extremo (que admiração!), jogou nas camadas jovens do Atlético de Madrid (ainda fez alguns treinos na equipa principal com Quique Flores), chegou a ser chamado à selecção portuguesa de sub-17 e neste momento representa o Puertollano, da IIDivisão B espanhola. Além disso costuma ter regularmente a visita de familiares e amigos do Montijo. São algumas das pessoas em quem deposita mais confiança. Alguns ajudam-no na sua atarefada vida empresarial.




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