PRIMEIRO PLANO

Deolindas e Cassandras, não culpem a universidade

por Bruno Faria Lopes, Publicado em 18 de Fevereiro de 2011   
"Para ser escravo é preciso estudar" tem interpretações perigosas e que fogem da resolução dos verdadeiros problemas dos jovens
Opções
a- / a+
Algures entre 2006 e 2009 o número de licenciados e de pessoas com o ensino secundário no mercado de trabalho em Portugal ultrapassou o número de pessoas que ficaram pelo ensino básico. Por outras palavras: só há escassos dois ou três anos é que passou a haver mais portugueses empregados com o 12.o ano completo ou um curso superior do que apenas com a quarta classe. Este facto é espantoso no que revela do nosso enorme atraso acumulado - e deve ajudar-nos a suavizar as expectativas nórdicas de curto prazo para este país, que, em muitos aspectos, é ainda emergente. Mas este mesmo facto levanta ainda algumas questões. Como é possível que, num país com um grau geral de qualificações ainda tão baixo, alguém cante que "para ser escravo é preciso estudar"? E como é possível que haja quem desvalorize a educação superior num país em que há mais trabalhadores com a quarta classe (1,17 milhões) que com uma licenciatura (890 mil)?

Ao contrário do que se quer fazer crer, ter um diploma em Portugal continua a ser a melhor forma de abordar o mercado de emprego. A empregabilidade dos diplomados é superior (mostra a OCDE), a progressão salarial é mais favorável (mostra o Livro Branco de 2007), a resistência ao desemprego é maior (mostram vários estudos), assim como a duração dos períodos de desemprego. Estes resultados são naturais, precisamente pelo contraste com as baixas qualificações da maioria - em terra de cegos, estudar mais tinha de valer a pena.

Mas então como explicar a letra dos Deolinda? Em primeiro lugar, há um problema nas áreas de qualificação superior. Em tempos de euforia económica - e mesmo com o país "de tanga" - Estado, pais e jovens foram responsáveis por más escolhas universitárias. Ciências sociais, comunicação social e humanidades são alguns exemplos de cursos procurados, mas com fraca empregabilidade. A abertura selvagem de vagas nestas áreas - para cumprir o sonho do canudo e a visão do "país de futuro" - foi a primeira armadilha montada às expectativas destes jovens (e dos pais, na maioria pouco qualificados). Mas houve uma segunda armadilha: a introdução de mecanismos de flexibilização laboral para compensar a rigidez dos contratos permanentes. A tendência para a contratação a prazo ou por recibos verdes foi crescendo e flexibilizando quem entrava no mercado de trabalho: os mais velhos que perdessem o emprego e os jovens. Este efeito cresceu ao mesmo tempo que aumentou a oferta de trabalho licenciado, numa combinação poderosa que diminuiu muito o prémio laboral de um curso. No final há uma terceira armadilha: o Estado, que é social, não fiscaliza a selvajaria laboral que grassa no país, e que começa no próprio Estado, que emprega falsos recibos verdes.

Tudo isto aconteceu com maior intensidade sobre o pano de fundo de uma década de estagnação económica. Dada a situação do país, é previsível que continue a piorar, mas não culpem "o ensino superior" - desencorajar os jovens de estudar é dos maiores erros a cometer neste país ainda de pobres qualificações. Depois de todos os outros erros que tramaram esta geração, seria mais um a fintar a resolução de problemas complexos.

Grande repórter

Escreve à sexta-feira


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close