Opinião

O meu lado feminino

por João Pereira Coutinho, Publicado em 27 de Junho de 2009   
Estaria eu interessado em escrever um texto sobre o meu lado mais feminino? Considerei a pergunta ofensiva e eu não respondo a perguntas ofensivas
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Querido diário,

Hoje recebi um convite do jornal i. Estaria eu interessado em escrever um texto sobre o meu lado mais feminino? Considerei a pergunta ofensiva e eu não respondo a perguntas ofensivas.

Com as lágrimas nos olhos e um tom histérico de ultraje (admito, admito), desliguei o telefone com violência, pousei a lima com que tratava das unhas e procurei consolação no frigorífico. Duas horas depois, e dois quilos depois, o telefone voltava a atacar. Seriam eles dispostos a repetir o insulto?

Falso alarme. Uma amiga de longa data passava pela cidade e sugeria um jantar tardio. Falámos durante três horas e, três horas volvidas, ainda não tínhamos decidido onde pôr a conversa em dia. Ela referiu um restaurante novo em plena Baixa. Fingi conhecer. Ficou decidido.

Mas ainda estava com os nervos em estado crítico. Lado feminino? Só a rua podia salvar-me. Saí. A rua salvou-me. Por cada cem euros de compras, a neura descia um bocadinho. Infelizmente, não encontrei a camisa de cor creme que procuro desde Maio. Tudo o que encontrei foram camisas cor de pérola. De vez em quando, qualquer coisa em tom marfim. É a barbárie. Desisti.

Regressei a casa, liguei a televisão. Passava um jogo de futebol entre uma equipa vestida de verde e outra de azul. Corriam todos muito. O comentador falava de "fora de jogo" para aqui, "fora de jogo" para ali. Nunca entendi o que é um "fora de jogo". Quinze minutos depois, adormeci.

Quando acordei, a tarde morria em Lisboa e o relógio não mentia: tinha apenas meia hora para o duche, o esfoliante, a máscara e o hidratante. Sem esquecer o acerto das sobrancelhas em desalinho. Demorei uma hora. A culpa não foi do banho. A culpa foi da empregada que resolveu enfiar os meus trinta pares de sapatos no espaço exíguo do armário. Foi um milagre encontrar os Crockett and Jones cor de avelã.

Conduzi pela cidade sem respeitar sinais ou prioridades. Estacionei onde pude e, após manobra impensada, bati num poste e rebentei com os farolins. Entrei no restaurante. Afinal, cheguei adiantado. Só meia hora depois é que a Joana entrava.

Sentámo-nos à mesa por volta das nove. Às dez, já tinha acabado de ler todas as folhas do cardápio, depois de parar e reflectir sobre cada um dos pratos. Resolvi voltar ao início só para ponderar melhor. Encomendámos já passava das onze.

O dia começou em choro. Terminou com boas risadas. Os amigos são o maior tesouro que temos na vida. Embora a Joana não me convença com aquela história dos chás antioxidantes. Chás? Para tapar as rugas? Aposto que naquela cara houve serviço de agulha. Ou então de bisturi. Grande cabra!

 

Professor convidado da universidade Católica Portuguesa e comentador político



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