Futebol internacional
Viva o gordo. Ronaldo vai-se embora e deixa uma herança pesada
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 15 de Fevereiro de 2011
Adeus ao fenómeno, que se estreou oficialmente no Estádio da Luz a dar um nó a Kenedy e marcou o primeiro dos seus 458 golos no Restelo
Jô Soares pensou e apresentou o Viva o Gordo, um programa de televisão humorístico brasileiro exibido na Globo de Março de 1981 a Novembro de 1987. Nesse show, um dos personagens (Zé da Galera) dizia sempre a mesma coisa: "Bota ponta, Telê!", numa alusão à teimosia do treinador brasileiro em "botar" um "ponta" (avançado-centro) na selecção. Pois bem, o "ponta" mais eficaz do futebol brasileiro, que não o mais regular, deixou o futebol. E chorou. Muito. Na despedida informal com os companheiros do Corinthians, e também na conferência de imprensa à frente dos jornalistas.
São Paulo mais parecia São Pedro, tantas foram as lágrimas derramadas por Ronaldo Luis Nazário de Lima. Um dos melhores do mundo. Um deus dentro de um campo de futebol. Fora dele, um homem comum com tendência para sair à noite e engordar. E é este o verbo que sobressai. Desde que se estreou na Luz (já lá vamos, já lá vamos...), Ronaldo engordou o seu prestígio e o do Brasil, o da sua conta bancária e os dos clubes por onde passou - e engordou, ponto final. Para mal dos nossos pecados. E já agora, dos dele.
Aos 34 anos, Ronaldo sai do futebol com 15 títulos (só lhe falta a Liga dos Campeões) e 458 golos marcados, 15 deles em Mundiais, o que faz dele o rei dos artilheiros na maior prova à escala planetária. Mas que é isso comparado com o facto de o seu primeiro golo ter sido no Restelo? Ah pois é...
Lisboa, 5 de Agosto de 1993 (eh lá, isto parece-se com o texto da página seguinte, do Mourinho). Então tentemos outra abordagem que não o nome da cidade. Restelo, 5 de Agosto de 1993. O Belenenses apresenta-se aos sócios, frente ao Cruzeiro, a equipa mineira acostumada a ir à Europa no Verão do hemisfério norte mostrar a sua formação. Na segunda parte entra um miúdo de 17 anos. Ronaldo, de seu nome. Figueiredo é que não o esquece. "Antes do jogo já havia quem me dissesse que o íamos contratar, portanto estava atento. Mas não o suficiente. Marcou-me um golo, de cabeça. Cruzamento da esquerda e toma lá, 2-0", conta o guarda-redes do Belenenses. No lugar de Ronaldo quem acabou por assinar pelo Belenenses foi Cleisson, mais Edenilson, o Pateta, porque um dia esqueceu-se das chuteiras em casa e calçou outras, de um companheiro muito mais alto que ele. Quando entrou em campo parecia o pateta. Da Walt Disney.
É pura comédia, sim, mas o filme de Ronaldo é outro, com golos (um a Costinha, nos 5-0 do Brasil a Portugal para atribuição do terceiro e quarto lugares nos JO-96) e lesões (duas graves, de ficar mais de um ano parado, ambas à frente de portugueses: Couto num Inter-Lazio em 2000; Vidigal num Milan-Livorno em 2008).
Tudo começou na Luz, a 3 de Agosto de 1993, num Benfica-Cruzeiro (1-1). Hélder, central benfiquista, lembra-se de um "magrinho que corria muito e que passou por Kenedy com uma jogada memorável pelo lado esquerdo, em que ele foi por um lado e a bola por outro. Sofreu falta e o Kenedy viu amarelo".
E tudo acabou ontem, quando um gordinho foi para um lado e a bola para outro. "Não consigo mais sacrificar-me. As lesões saltam de um joelho para o outro, de um músculo para o outro." Viva o gordo!
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Viva o gordo. Ronaldo vai-se embora e deixa uma herança pesada
Actividade em ionline