"Temos de impor a ordem." Flatulência dá multa no Malawi

por André Rito, Publicado em 14 de Fevereiro de 2011   
É uma medida insólita: no Malawi, o governo quer proibir a flatulência em público. A iniciativa é do ministro da Justiça
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Era um daqueles truques parvos que nunca falhava. Para apanhar o autor da flatulência, os putos diziam entre si: "Quem se largou tem as mãos amarelas". E os suspeitos do costume lá iam na cantiga, apressando-se a virar as palmas das mãos para todos verem que estavam inocentes. O embaraço é histórico. Não é possível soltar um gás de forma tranquila. A menos que haja a certeza de que será uma bufa silenciosa e inodora. Ou que vem "de pantufas", como diziam os putos. Há excepções, claro, mas as teorias sociológicas que as tentam explicar esbarram quase sempre na mesma pergunta: qual o grau de confiança a conquistar entre duas pessoas até se atingir à banalização do pum?

No Malawi, a preocupação parece ser outra. As autoridades decidiram banir a flatulência das ruas, empurrando-a para a casa das famílias, onde supostamente é uma coisa inofensiva. Isto a bem da moral social vigente. O ministro da Justiça e Assuntos Constitucionais, citado pela AFP, argumenta que "o governo tem o direito de manter a decência pública". "Temos de impor a ordem", afirmou George Chaponda, criticando o "multipartidarismo" e a "liberdade" que conferem "o direito" de as pessoas libertarem gases "em qualquer lugar".

Ou seja, em casa sim - onde o cheiro se mistura com a fossa, logo ninguém dará por nada - na rua não, sob pena de incorrer num "delito menor" e respectiva multa. É tudo uma questão de prioridades, num país da África oriental onde existe um médico por cada 65 mil habitantes, e onde a esperança média de vida ao nascer não vai além dos 37 anos. Talvez haja aqui um nexo de causalidade que só os governantes terão visto. Mas, concedendo o benefício da dúvida, não será difícil admitir que o pum alheio pode ser prejudicial para quem o respira.

Questões de saúde pública à parte, todos sabemos que a banalização do pum pode ser fatal. Sobretudo se estivermos a falar da vida privada. E terá sido aqui que falharam as contas dos governantes do Malawi. O casalinho de namorados que se solta tranquilamente enquanto vê a telenovela tem os dias contados. Está condenado. Não há amor que lhe resista. Soltar-se em frente à namorada é sinal de que já se conquistou tudo. Para lá do gás, nada existe. Acabou-se. Pum.


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