TVI no centro da tensão política
Publicado em 26 de Junho de 2009
Moniz apoia a operação, mas "numa perspectiva estrita de negócio". A presença do Estado na PT gera suspeitas de condicionamento editorial na TVI. Governo só comenta "após conhecer a proposta concreta da PT"
Durante a manhã, o Presidente da República pediu "transparência" nas negociações entre a Prisa e a Portugal Telecom. Ao início da tarde, a empresa que detém a TVI pronunciou-se pela primeira vez sobre o assunto: fê-lo através de um comunicado enviado à CMVM e deixou pouca margem para dúvidas quanto à proximidade da venda de 30% da Media Capital à operadora da qual o Estado é accionista.
A combinação destes dois acontecimentos deixou o governo e o próprio PS em estado de tensão. O governo de José Sócrates e os socialistas aguardam agora pelas explicações do presidente da PT, Henrique Granadeiro, para conhecer os desenvolvimentos do processo e perceber que impacto poderá ter este negócio na imagem do governo, a três meses das legislativas. Na memória de todos, ainda estão bem presentes os episódios da Central de Comunicação do governo de Santana Lopes, que acabou por nunca avançar, bem como o afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI na sequência de declarações polémicas do então ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva. "Ninguém esquece o que estes acontecimentos resultaram em pressões políticas junto da comunicação social", adiantou uma fonte contactada pelo i. E as declarações do Presidente da República, recebidas com alguma surpresa no PS e no governo, só intensificaram a preocupação.
No comunicado emitido a meio da tarde, o director-geral da Prisa e administrador da Media Capital, Manuel Polanco, defendeu que o negócio com a PT é "uma operação que gera oportunidades extraordinárias de futuro para a Media Capital". Embora não dê as conversações por concluídas, o comunicado confirma a iminência do negócio avançado na edição de terça-feira do i, referindo mesmo um "acordo entre a Prisa e a PT". Acordo esse que mereceu a aprovação do director-geral da estação, José Eduardo Moniz, que era apontado como alvo secundário do alegado interesse do governo na entrada da PT na TVI.
"[O eventual acordo com a PT] pode proporcionar a uma estação de televisão líder a abertura de novas oportunidades para a geração de conteúdos e o alargamento da sua capacidade de oferta, favorecendo o crescimento nos mercados nacional e internacional", afirmou Moniz no comunicado. Sobre os possíveis condicionamentos políticos à linha editorial da estação que o primeiro-ministro já acusou de fazer "jornalismo travestido", o director da TVI não disse uma palavra. Mas fez questão de deixar o seu apoio ao acordo com a PT vinculado a "uma perspectiva estrita de negócio".
A ressalva não será alheia à convulsão política gerada pela provável entrada da PT no capital social da dona da TVI. Depois de Manuela Ferreira Leite ter acusado Sócrates de mentir quando disse que o governo "nada sabe" sobre o negócio, Cavaco Silva abriu uma excepção ao "princípio de não fazer declarações sobre negócios de empresas". "Face às dúvidas que estão instaladas na sociedade portuguesa, é importante que os responsáveis da PT expliquem o que está a acontecer entre a PT e a TVI. É uma questão de transparência", defendeu o Presidente da República.
Segundo fontes da TVI, o impacto político desta operação terá sido o travão no cenário que apontava para o afastamento de José Eduardo Moniz da direcção de informação do canal. "Tendo em conta a polémica gerada e a proximidade das eleições, ficaram sem condições para afastar quem quer que seja", apontou a mesma fonte. A TVI vai, por isso, "manter intocável a sua linha editorial" a médio prazo, "incluindo a emissão do Jornal Nacional de sexta-feira, apresentado por Manuela Moura Guedes".
As dúvidas sobre as intenções da PT e do governo nesta operação levaram o CDS a anunciar a intenção de chamar ao Parlamento o ministro das Obras Públicas e Telecomunicação, Mário Lino, para explicar os contornos da operação. "A que título participações do Estado que envolvem acções douradas na PT podem servir para o Estado, por via indirecta, comprar uma televisão quando já tem uma?", questionou Diogo Feio.
O governo continua a recusar a ideia de ter recebido informações ou transmitido orientações à PT sobre este negócio. "Não temos conhecimento de qualquer proposta. O governo só se pronunciará depois de conhecer a proposta concreta da PT", garantiu ao i fonte oficial do Ministério das Obras Públicas. A mesma fonte defendeu ainda que o governo "tem a tradição de intervir o menos possível nas empresas públicas e não públicas". E, neste caso, "só o fará se a avaliação do negócio cair sobre o raio de acção da golden share que o Estado tem na PT".
Até ao fecho desta edição, a administração da PT, que ontem esteve reunida, não esteve disponível para comentar as negociações com a Prisa.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: TVI no centro da tensão política
Actividade em ionline