Demorou dez anos a sair do papel. A história ainda correu o risco de ser inserida no "Wrestler", mas o realizador Darren Aronofsky percebeu que ballet e wrestling não funcionavam bem. Com um orçamento tão reduzido (cerca de 10 milhões de euros) que nem tinham um médico de plantão, o "Cisne Negro" parecia um patinho feio. Mas Natalie Portman deu-lhe a projecção necessária e por vezes um empurrão.
Durante as gravações, a actriz, de 29 anos, deslocou a costela e quando pediu ajuda, apercebeu-se que não havia um único médico no set. O orçamento não podia ser mais esticado. Portman não achou muita graça e sugeriu que cortassem antes na roulote dela. Lá conseguiram um médico de plantão.
Natalie Portman passou um ano a treinar para ser Nina Sayers. Perdeu quase 10 quilos - emagreceu tanto que o realizador chegou a ficar preocupado -, mas ganhou um Globo de Ouro e é uma das favoritas ao Óscar de Melhor Actriz. Pelo meio ainda fez uma comédia romântica com James Franco, "Real Desatino", e encontrou o actual marido e pai do futuro filho, o bailarino Benjamin Millepied. O francês foi contratado como coreógrafo para o "Cisne Negro" e dançou com Natalie Portman e Mila Kunis no papel de David.
Não foi apenas a dedicação aos ensaios e treinos que ajudou a actriz a interpretar o papel de Nina Sayers, uma bailarina que ambicona a perfeição e vive tão obececada com o trabalho que chega à loucura. A licenciatura em psciologia, na Universidade de Harvard, também contribuiu para o sucesso do papel. "Este filme é um caso típico que estudei na faculdade", disse aos jornalistas. Mas Natalie Portman não tem dúvidas que o mais difícil foi a preparação para dançar. Mesmo com um duplo para as pernas. "Acho que o lado físico foi o mais duro. Nunca tinha treinado tanto, aqui eram entre cinco a oito horas de treino diário", revelou a actriz que baptizou as sapatilhas de pontas de "objectos de tortura medievais".
Em "Cisne Negro" vemos o lado mais belo e negro do ballet. A bulimia, a competição extrema, a pressão familiar da perfeição e o assédio de quem tem o poder. Nina quer ser a solista da companhia e ter o papel principal em "Cisne Negro". O filme acaba por dar vida à metáfora do bailado.
Reacções Quando a bailarina Ana Sofia Leite entrou na sala para ver o filme sabia que não ia encontrar o retrato da sua profissão. Com 25 anos, é uma das bailarinas da companhia Kamu Suna Ballet, em Lisboa, e revê-se na busca da perfeição e no retrato de dedicação ao trabalho. Mas Darren Aronfsky leva tudo ao exagero, defende. "Vivemos em prol do trabalho, muito mais do que em outras profissões. Chegamos a casa cansados, mas continuamos a ensaiar e rever os passos. É o equivalente à alta competição. Mas além da parte técnica, temos de entrar na personagem", explica Ana Sofia Leite ao i. Ainda assim, o filme não foge aos estereótipos. "O retrato da bailarina sempre com problemas com o peso e com a competição. Temos de ter muito cuidado com a alimentação, é certo, mas não podemos ficar doentes e sem força para dançar. Há muitos mais problemas de bulimia e anorexia no mundo da moda", diz. Os pontos fortes do filme para a bailarina são: "O fiel retrato dos detalhes do trabalho duro, das dores, das feridas." Quanto ao desempenho de Natalie Portman, a bailarina profissional diz que se portou bem, mas quem sabe o que é um verdadeiro cisne, vê que falta ali qualquer coisa.
O filme tem causado alguma polémica e as críticas de bailarinos não têm parado. O "Cisne Negro" estreou em Janeiro no Reino Unido e Tamara Rojo, bailarina principal do Royal Ballet, disse ao "The Guardian" que era um filme preguiçoso e incluia todos os clichés do ballet. O seu colega Edward Watson acrescentou: "O que é triste é que ao mesmo tempo que o filme mostra o que nos leva à perfeição, também nos faz parecer ridículos." Mas todos aplaudem a performance de Portman. "Já vi bailarinas a ficarem paranóicas, como a Nina, quando descobrem outra bailarina no seu lugar a ensaiar, mas não ao ponto de tentarem matar a colega", disse a directora do Ballet Black, em Inglaterra, Cassa Pancho. É a sétima arte, senhores.




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