Revolução popular

Egipto. Milhões exigem saída de Mubarak e fecham a cortina à ditadura

Publicado em 01 de Fevereiro de 2011   
"Marcha dos milhões" inunda hoje o Cairo. Militares recusam disparar contra manifestantes
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Os gestos de boa vontade do presidente egípcio Hosni Mubarak já não salvam o actual regime autocrático do Cairo. Chegou o tempo de fechar as cortinas à ditadura. Um milhão de pessoas inundam hoje as ruas da capital do Egipto para repetir o mantra da revolução popular que se arrasta há oito dias consecutivos: "Mubarak tem de sair." E o Exército não irá disparar um único tiro sobre os manifestantes que hoje participam na "marcha dos milhões". A garantia foi dada ontem pelo próprio comandante das divisões militares estacionadas no Cairo, o major Ahmed: "Nós estamos com o povo. Eles amam-nos. Nunca iremos magoar o povo."

Poucas horas depois, os órgãos de comunicação egípcios divulgavam a posição oficial dos militares: "Ao grande povo do Egipto, as vossas forças armadas, reconhecendo os direitos legítimos das pessoas, não usou nem usará a força contra o povo egípcio."

A "marcha dos milhões" pretende ter o feito de uma mobilização popular sem precedentes e simultaneamente os efeitos de uma greve geral. Foi convocada pela oposição ao regime que conta com pelo menos uma dezena de organizações. "Nós queríamos fazer parte da marcha de amanhã na Praça da Libertação (Cairo), mas já que os comboios foram bloqueados e não existem outros meios de transporte, decidimos ficar aqui e organizar outra marcha de milhões amanhã", explicou à AFP Abeer Yussef, um dos milhares de egípcios que vivem em Alexandria.

O presidente Mubarak fez ontem uma remodelação governamental e instruiu o novo primeiro-ministro do país, Ahmed Shafiq, para "iniciar o diálogo com os grupos da oposição" e "perceber quais são as exigências específicas" dos manifestantes. Eles exigem a saída de Mubarak, como disse no domingo ElBaradei, laureado com Prémio Nobel da Paz em 2005 e um dos putativos chefes do movimento popular. E exigem muito mais: o fim do controlo militar do regime político e a instauração de um regime livre e democrático. "Desde o Iraque que ouvimos os Estados Unidos dizer que só estão interessados na democracia no mundo árabe. Este é o local ideal para a democracia", afirmou Howeida Helmy, 43 anos, ao "USA Today" em plena Praça da Libertação no Cairo - o epicentro do terramoto político que abalou o país.

Pode o Egipto ser uma democracia? As atitudes e os valores partilhados pelo povo (ver gráficos) não apontam nesse sentido. Existe uma franja islamita e conservadora importante que não se revê nas reivindicações da população urbana e instruída da classe média que hoje ocupa as ruas da capital egípcia.

O futuro é uma incógnita. Mas a pressão internacional dos Estados Unidos e da União Europeia dirige-se claramente para "as reformas necessárias à realização de eleições livres e justas", como anunciaram ontem o presidente Barack Obama e os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE.

Ao início da tarde, cerca de 15 mil pessoas voltaram a desafiar a ordem de recolher obrigatório. "Não aceitamos nenhuma outra mudança que não a partida de Mubarak", disse à AFP um manifestante sob anonimato. "Nós queremos uma mudança completa de governo, com autoridade civil", acrescentou Rifat Ressat. Sobre a violência, Ressat diz que "o Ministério do Interior é o responsável por toda esta violência, porque foi a polícia que abriu fogo sobre os manifestantes" - 150 pessoas já morreram desde o início da revolta.

Exército no Sinai Os reforços do Exército egípcio chegaram ontem ao Norte do Sinai, na fronteira com a Faixa de Gaza, a área preferencial do movimento palestiniano Hamas para se abastecer de armas. Houve consultas prévias entre os governos egípcio e israelita para o reforço da zona desmilitarizada na sequência do acordo de paz ente os dois países e esta foi a primeira vez que o Exército egípcio regressou ao local desde 1979. Fê-lo para manter o bloqueio na fronteira com a Faixa de Gaza. Uma força de elite egípcia conseguiu capturar dois operacionais do braço armado do Hamas (Ezz E-Din al Qassam) que, segundo os serviços secretos israelitas, foi responsável pelo ataque às forças especiais do Ministério do Interior do Egipto estacionadas na secção de Rafe do porto de El Arish. com Joana Azevedo Viana


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