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Os países não são grandes empresas a competir no mercado global

por Paul Krugman, Publicado em 28 de Janeiro de 2011   
Os interesses das grandes empresas nominalmente americanas e os interesses do país nunca foram o mesmo, mas actualmente estão menos alinhados do que nunca
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Chegou a nova palavra da moda, igual à velha palavra da moda. Antes do Estado da União o presidente Barack Obama já tinha anunciado o seu tema principal: a competitividade. O Quadro de Conselheiros para a Recuperação Económica mudou de nome, para Conselho Presidencial para o Emprego e a Competitividade. E no seu discurso de sábado, na rádio, o presidente declarou que "podemos competir vantajosamente com qualquer outro país do planeta".

Como manobra política pode ser perspicaz. Há quem diga que Obama recuperou um velho lugar--comum em nome de uma boa causa, para vender um muito necessário investimento público a um público devidamente doutrinado na ideia de que a despesa pública é uma coisa má.

Mas não nos enganemos a nós mesmos: falar de "competitividade" como objectivo é basicamente enganador. Na melhor das hipóteses é um diagnóstico errado dos nossos problemas; na pior, pode dar origem a políticas baseadas na ideia incorrecta de que o que é bom para as empresas é bom para a América.

No que diz respeito ao diagnóstico errado, que sentido faz ver as nossas preocupações actuais como um resultado da falta de competitividade? É verdade que se exportássemos mais e importássemos menos teríamos mais emprego. No entanto, pode dizer--se o mesmo da Europa e do Japão, cujas economias também estão em recessão. E não podemos todos exportar mais e importar menos a não ser que descubramos outro planeta a quem vender. Sim, podemos pedir à China que reduza o superavit da balança comercial - mas se o que Obama propõe é enfrentar a China o melhor é dizê-lo claramente.

Além disso, embora a balança comercial dos Estados Unidos seja deficitária, melhorou em relação à época anterior à Grande Recessão. Era melhor que o défice se reduzisse ainda mais, mas em última análise se estamos metidos num sarilho é porque tivemos uma crise financeira.

Mas não será pelo menos útil pensar no nosso país como uma espécie de EUA SA, em competição no mercado global? Não.

Pensemos no seguinte: um administrador que aumente os lucros espremendo ao máximo a força de trabalho é considerado bem-sucedido. Foi mais ou menos o que aconteceu nos Estados Unidos ultimamente. O emprego está em mínimos históricos, mas os lucros batem novos recordes. Nesse caso, quem tem razões para pensar que se trata de um êxito económico?

Mesmo assim, pode dizer-se que falar de competitividade ajuda Obama a acalmar os receios de que o presidente esteja contra o desenvolvimento económico. Pode ser, desde que ele perceba que os interesses de empresas nominalmente "americanas" e os interesses do país, que nunca foram os mesmos, estão actualmente menos alinhados que nunca.

Consideremos o caso da General Electric, cujo administrador--executivo, Jeffrey Immelt, acaba de ser nomeado para chefiar o velho conselho com novo nome. Não tenho nada contra Immelt, mas com menos de metade dos seus trabalhadores e dos lucros a resultarem de negócios em solo americano, os destinos da GE têm muito pouco a ver com a prosperidade dos Estados Unidos.

A propósito: há quem tenha louvado a nomeação de Immelt com o argumento de que pelo menos representa uma empresa que produz coisas, em vez de ser apenas mais um financeiro espertalhão. Lamento ter de fazer rebentar esta bolha, mas hoje em dia a GE obtém mais rendimentos das suas operações financeiras que da produção de bens - na realidade, a GE Capital, que recebeu uma garantia governamental para a sua dívida, foi uma das grandes beneficiárias das medidas de estímulo à economia.

Sendo assim, que significa a nova retórica da competitividade da administração para a política económica?

A interpretação mais simpática, como já disse, é que se trata apenas da embalagem de uma estratégia económica centrada no investimento público, investimento esse que tem o objectivo de criar emprego agora ao mesmo tempo que promove o crescimento a longo prazo.

A mais antipática é que Obama e os conselheiros estão realmente convencidos de que a economia está estagnada porque eles foram demasiado duros com as empresas e de que aquilo que faz falta ao país são estímulos fiscais às empresas e menos regulação.

A mim palpita-me que estamos sobretudo a falar de embalagem, e se o presidente propuser um aumento sério de investimentos em infra-estruturas isso deixa-me contente. No entanto, mesmo que proponha boas medidas, o facto de sentir necessidade de as embrulhar em más metáforas já é um triste comentário ao estado do nosso discurso.

A crise financeira de 2008 foi um momento cheio de ensinamentos, uma lição acerca do que pode correr mal quando confiamos na capacidade dos mercados de se auto-regularem. Também não devemos esquecer que algumas economias altamente reguladas, como a da Alemanha, conseguiram, muito melhor que nós, defender o emprego depois da crise. No entanto, por qualquer razão, este momento pedagógico passou sem que nada tivesse sido aprendido.

Obama, por si mesmo, até pode ter um bom desempenho: a sua taxa de aprovação está a subir, a economia dá sinais de vida e as suas probabilidades de reeleição parecem boas. No entanto a ideologia que produziu o desastre económico de 2008 está outra vez na mó de cima - e parece estar para ficar, até produzir um novo desastre.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


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