EDITORIAL

A escola estatal e a escola pública

por Manuel Queiroz , Publicado em 28 de Janeiro de 2011   
A propósito dos protestos do ensino privado anda para aí muita confusão ideológica. E nunca se provou que a escola estatal fosse mais barata que a escola privada
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Não achei propriamente o máximo do estilo a manifestação de protesto que juntou crianças e caixões, convocada em defesa do ensino particular e cooperativo e contra os cortes de 30% nos subsídios ou contratos que ligam o Estado a essas escolas.

Mas corre por aí um debate em que me parece que o problema é mal apresentado e que consiste basicamente em dizer que o ensino privado é caro e que não quer fazer cortes. Mais ainda, ouvi a ministra da Educação e a sua terrível gaffe, do tipo que essas escolas com o contrato de associação querem é pagar campos de golfe, aulas de equitação e piscinas. Ora pelo menos a natação há muito que é apresentada como um desporto essencial para a formação dos jovens e como ainda não se inventou a natação de sequeiro...

E convinha que a ministra fosse mais objectiva nessas suas críticas absolutamente demagógicas.

A verdade é que o Estado resolveu cortar 30% o dinheiro que tinha acordado dar ás escolas e chega a dizer que o ensino público é mais barato mas sem mostrar as contas. E admite-se que seja verdade, mas sem apresentar as continhas mais valia estar calado.

E convém perceber que as escolas privadas com os chamados contratos de associação são privadas mas não deixam de pertencer à rede pública e de prestar um serviço público de educação, porque, aliás, o Estado a reconhece como tal com esse contrato. Nem só a escola estatal é uma escola pública, porque quem tem contrato de associação não pode escolher os alunos senão de forma aleatória, nem as escolas cobram propinas.

Por isso, quando o Estado faz um contrato desses não está a dar uma benesse, está apenas a reconhecer a necessidade de aquela escola, naquele local, existir. Uma coisa é a propriedade, outra coisa é a natureza do serviço que presta - e o Estado é que garante que o ensino é bom. E depois escolher a escola e o tipo de ensino está garantido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem e também pela Constituição Portuguesa (art. 43.o, n.o 2 "O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas").

Ou seja, quando o Estado financia esses contratos está a financiar a educação do aluno (entregando, por ser mais fácil, presume-se, o dinheiro directamente à escola). Não está a dar um subsídio por sua alta recreação, ou porque aquele colégio é desta religião, ou a permitir que um "colégio de ricos" tenha dinheiro que as escolas estatais não têm.

Percebe-se que o Estado deve diminuir os seus gastos e que também o deve fazer na educação. Já é pouco sério que se diga que o ensino estatal é muito mais barato, quando até o PS se escusou, no parlamento, a criar uma comissão que ajudasse a determinar o valor exacto desse custo (que também não é igual em todos os ciclos de ensino, como é evidente).

A ministra tem sido muito populista na forma como se tem referido ao caso e eu prefiro um país em que eu possa escolher a escola dos meus filhos (e eles andaram quase sempre no ensino público). De um momento para o outro, anda toda a gente a gritar muito a favor da escola pública, mas na verdade gritam apenas a favor da escola estatal, que é coisa bem diferente, e em muitos dos lugares onde existem os contratos de associação nem sequer há escola estatal. É preciso cuidado com os preconceitos ideológicos e de classe quando se trata de educação. E não ficou claro porque é que os cortes foram de 30%, e o governo deve explicá-lo.


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