Filhos de Sophia de Mello Breyner Andresen doam espólio por não lhes pertencer

por Agência Lusa com Cláudia Garcia, Publicado em 26 de Janeiro de 2011   
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Os cinco filhos de Sophia de Mello Breyner Andresen doaram hoje o espólio da poeta à Biblioteca Nacional, porque, como explicou um deles, não lhes pertencia.

Consultados sobre a doação do espólio de Sophia (1919-2004), todos disseram "imediatamente que sim" e foi uma decisão que "não custou nada", porque – defendeu um deles, Miguel Sousa Tavares, jornalista e escritor – "enquanto filhos não seria nunca a partilha e subsequente posse particular de parte desse espólio por cada um de nós que nos ajudaria a domesticar as saudades que dela temos".

Miguel Sousa Tavares falava na cerimónia em que assinou, com os irmãos Maria, Isabel, Sofia e Xavier, o termo de doação do espólio da mãe à Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), realizada hoje à tarde perante um auditório cheio, onde se encontravam alguns "amigos de toda a vida" da escritora, cuja presença agradeceu, e a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas.

"Enquanto cidadãos, seus compatriotas na língua e na cultura que é nossa, nós sabemos que, de facto, não éramos donos de coisa alguma. Acidentes biológicos não criam direitos de propriedade", assinalou.

"Se ela própria, por morte, deixou de ser dona dos cadernos e de tudo o resto ligado à produção da sua obra, que foi seu em vida, que sentido faria que os seus filhos, por simples direito de herança, guardassem para si o que deixou de ser de alguém e passou a ser de todos? Estamos bem conscientes de que a circunstância de sermos filhos dela traz consigo uma responsabilidade, não um direito", sublinhou.

A terminar o seu discurso, Miguel Sousa Tavares destacou o que considera mais importante: "O nosso privilégio foi recebermos tudo o que recebemos da nossa mãe."

A irmã mais velha, Maria Andresen, professora universitária de Literatura e também ela poeta, contou como foi o processo de inventariação e classificação do espólio – tarefa de que a mãe lhe pediu que se ocupasse -, descrevendo as dificuldades.

"Coube-me, como familiar, conhecedora da vida e da obra, a leitura e a identificação de cada papel que ia surgindo. Foi um trabalho por várias razões difícil de levar a cabo, que me ocupou dias e noites e que me aproximou muitíssimo da minha mãe e da sua poesia", disse, com a voz embargada.

A seguir foie a vez de o filósofo Eduardo Lourenço, um dos "amigos de toda a vida", recordar Sophia.

"Como falar de Sophia? Como é difícil falar de Sophia...", começou por dizer, classificando a cerimónia como "um momento cultural de grande beleza, quase um ato poético, que é o que ela mais merecia ou merece".

Depois de se tornarem amigos, Sophia enviou-lhe um livro seu com uma dedicatória em que afirmava considerar o livro "irregular" e justificando: "Penso que a poesia faz parte da história da vida e não da história da literatura."

"Acho que isto resume a sua visão da vida e da poesia: a poesia não desligada da essência da vida, a poesia como essência da própria vida. E é isso que eu mais admiro na poesia de Sophia", frisou.

A concluir a sessão, falaram outros amigos de Sophia – Mário Soares, Artur Santos Silva, Guilherme d’Oliveira Martins e Gonçalo Ribeiro Telles – e os atores Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra leram alguns dos seus poemas.

*** Este texto foi escrito nos termos do novo Acordo Ortográfico ***

 



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