Hollywood. A Meca do cinema está em apuros

por Ana Rita Guerra, Publicado em 02 de Julho de 2010   
Com as vendas de DVD a cair a pique, os estúdios têm de enfrentar novas formas de pirataria
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Há cada vez mais patrões de Hollywood com dificuldades em adormecer à noite. O problema não são os filmes de Tom Cruise que se espalham ao comprido nem a saturação de maus títulos em 3D, mas sim o colapso da maior fonte de rendimentos dos estúdios: os DVD.

As receitas das bilheteiras bateram um novo recorde em 2009, atingindo os 7,9 mil milhões de euros. Mas a venda de DVD caiu 13% no ano passado e o aluguer de títulos derrapou 14% no primeiro trimestre de 2010. Aquela que ainda é a galinha dos ovos de ouro de Hollywood está a diminuir de tamanho muito rapidamente. E como se a recessão e um início de Verão morno não fossem suficientes, os estúdios estão a ser assombrados por um novo fantasma: o fenómeno dos cyberlockers.

Trata-se de "cacifos digitais", ou sites de alojamento de ficheiros, a maioria legais, cada vez mais populares entre piratas. Na semana passada, o director de operações da Paramount Pictures, Fred Huntsberry, deixou claro que é "a verdadeira" ameaça a Hollywood, maior ainda que a "pirataria tradicional" em sites de peer-to-peer. E que, se nada for feito, os cyberlockers vão levar a uma razia sem precedentes de toda a indústria do cinema.

"Os cyberlockers representam actualmente o método preferido pelo qual os consumidores estão a usufruir de conteúdo pirateado", disse Huntsberry, que falava durante a Cinema Expo em Amesterdão. Os estúdios têm sido acusados, nem sempre justamente, de dificultarem o acesso digital legal aos conteúdos, o que leva os consumidores a recorrerem a sites ilegais. Por exemplo, a Paramount distribui conteúdo para 200 plataformas legais online - garante Huntsberry - e mesmo assim só o filme "Transformers: Revenge of the Fallen" foi alvo de 16 milhões de tentativas de download ilegal desde o lançamento.

Porque é que isto é relevante? De acordo com Kathy Garmezy, da Directors Guild of America, 70% dos lucros de um filme advêm de mercados secundários, principalmente da venda e aluguer de DVD. Ou seja, mesmo quando os filmes são um sucesso nas bilheteiras, os estúdios recolhem menos de 50% dos lucros gerados por essa via. Este argumento tem suportado a luta contra a pirataria e já colheu frutos do governo norte-americano, que lançou uma operação gigantesca contra a pirataria de filmes e séries de televisão na net. Só na quarta-feira, o Departamento de Justiça norte-americano encerrou compulsivamente nove cyberlockers, entre os quais o russo ZML.com, o TVShack.net, o Movies-links.tv, Filespump.com e ThePirateCity.org. A importância desta indústria, que emprega 2,5 milhões de pessoas e da qual dependem 100 mil empresas- -satélite só nos EUA, foi a justificação dada para o raide na internet.



como funciona Os cyberlockers não são necessariamente sites ilegais, como indica ao i Eduardo Simões, da Associação Fonográfica Portuguesa, embora vários estejam ligados a associações criminosas e até à máfia russa (caso do recém-encerrado ZML). A maioria está alojada fora dos Estados Unidos, em países como Suíça, Colômbia, Ucrânia, Alemanha e Rússia (casos do Rapidshare.com e do MegaUpload.com). No geral, são sites que fornecem alojamento para ficheiros. Qualquer utilizador pode carregar o que quiser, havendo níveis de acesso gratuito e contas premium (com maior velocidade). O utilizador recebe um link com o endereço onde está alojado o ficheiro (um filme, um álbum, etc.), pode disponibilizar esse link a quem quiser e até revendê-lo. Aliás, muitos consumidores que pagam assinaturas nem sabem que estão a consumir pirataria. Podem entrar num esquema de "filmes ilimitados por cinco euros/mês" sem desconfiar que é ilegal - apesar de já existirem situações em que o número do cartão de crédito usado no pagamento é roubado e usado por cibercriminosos.

A ironia, para o executivo da Paramount, é que alguns sites ilegais são tão bons que parecem melhores que os legítimos (de tal maneira que empresas como a Kentucky Fried Chicken e a Netflix já puseram anúncios neste tipo de páginas). Os filmes costumam ser obtidos através de gravação ilícita na sala de cinema.

o dilema de hollywood Enquanto luta contra a pirataria, a Meca do cinema tarda em desenvolver um novo modelo de negócio. Até agora, a venda e aluguer de filmes em formato digital não chegou sequer perto de compensar as quebras do DVD, mas os estúdios mantêm a estratégia de pagar salários milionários às estrelas e apostar em guiões "seguros", investindo em menos filmes. No entanto, o sucesso de títulos como "Actividade Paranormal", um filme básico de baixo orçamento que ganhou popularidade primeiro na internet, mostra que o público pode querer outra coisa. Para os estúdios, não entender isso pode ser tão fatal quanto os cyberlockers.


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